Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Ao sentir as representações…

"Pensar é como andar à chuva Quando o vento cresce e parece que chove mais." A.Caeiro

Penso logo existo? Se não sinto o que rodeia o que sou, como me sinto a mim diferente do que me rodeia. Sinto com o pensar e os meus pensamentos são os meus sentimentos, sigo Alberto Caeiro, ou perco-me no cartesianismo filosófico da ideia de que a mente somos nós e o corpo é outra identidade? Chega pensar e representar mentalmente as coisas, ou só as sentindo, as consigo integrar, ou só as sentindo as consigo pensar?

No contexto da prática psicomotora, o terapeuta é mestre da metáfora, das comparações que não precisam da palavra “como”, das representações do ausente e da criação do presente – o espaço de ginásio/sala, transforma-se e cria-se para responder ao que são as vivências próprias da intervenção. A contenção e protecção neste espaço permitem experiências únicas que por razões múltiplas podem ser difíceis ou impossíveis de suportar nos contextos reais…mas será o representável, o ficcionalmente criável a aproximação mais real ao que vivemos? Podemos ir mais longe nestes pontos de contacto com os contextos e situações que necessitam ser trabalhadas?

Quando se fala em intervenção psicomotora no exterior de um ginásio/sala, este tema surge levantando questões de reflexão importantes. Quais as indicações terapêuticas para a intervenção neste espaço, quais as possibilidades aumentadas que oferece? Se por um lado podemos ter lugares com uma riqueza multissensorial aumentada, com uma ligação directa aos contextos de vida real da pessoa e com um transfer facilitado das competências trabalhadas, por outro lado, perdem-se as componentes protectoras que o espaço físico do ginásio/sala, em si confere na relação de contenção que, na maioria das vezes, é estabelecida com a pessoa. Desta forma, qualquer proposta neste sentido, é uma proposta arriscada, uma intervenção que deixa o terapeuta e a pessoa “expostos” a um maior número de variáveis não controláveis – nem todos os terapeutas se sentem confortáveis com a saída do seu espaço de controlo, nem todas as pessoas querem e pretendem esta saída, pois não é de todo o que procuram.

Assim, não é uma escolha frívola nem tomada de ânimo leve, envolve uma reflexão importante para que seja exequível, envolve pensar se o problema está na incapacidade de realizar o que se sabe nas situações reais de vida, se está porventura, nas dificuldades de realização em qualquer das situações. Que factores estão envolvidos nas dificuldades apresentadas, serão possíveis de trabalhar num espaço representativo do que são as condições reais? Ou haverá motivo para ir mais longe, “sair à rua” e viver no concreto o que necessita de ser trabalhado?

As palavras acima são como a prática terapêutica, só serão representativas se sentidas no desafio renovado que deve ser planear e propor uma intervenção, portanto, que o vosso “rebanho” de pensamentos seja vivido, para que as decisões sejam as melhores.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 14 de Junho de 2011 by in Uncategorized.

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