Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O dom da inutilidade

"A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio; quem apareça manchado de superstição ou de fanatismo ou incapaz de separar e distinguir ou dominado pelos sentimentos e impulsos, não o tomarei eu como guia do povo” Da Silva. A

Capacidades especiais, super-heróis, sobrenaturalidade, sobredotação, apetência, dádiva…vocábulos de excelência, aplaudidos e exaltados pela sua possessão, entendidos e compreendidos como dons.

A palavra dom significa “prenda, talento, dote natural”, usada para caracterizar competências do indivíduo que pelo seu lado positivo e único o distinguem dos outros na sua forma de funcionar nos mais diversos contextos e acções. Quando falamos em dons, será que neste caso, usamos a palavra no que ela significa? Ou entendemos a realidade de forma inversa e pensamos que ela significa a verdade que a palavra encerra?

Ao caminhar por uma conhecida livraria, reparava em vários livros que exultavam as capacidades especiais de indivíduos com dislexia (“O dom da dislexia”), de crianças do espectro do autismo (“Capacidades especiais no autismo”) ou o caso mítico das supostas crianças índigo (“As crianças índigo”), reparava como esta propaganda de especialidade e “espectacularidade”, de mistério e sensacionalismo deixa espaço a que se pense estas características peculiares de algumas perturbações do desenvolvimento como dádivas, como se as perturbações de que sofrem fossem “prendas” excepcionais, que lhes dessem possibilidades de uma vida mais sapiente que o comum dos mortais.

Neste ponto, como em muitos outros, não sei se será pior esta desinformação do que o desconhecimento do problema – a “valorização publicitária” das perturbações como motor de dons, deixa perceber uma falta enorme de conhecimento das problemáticas e, mais que isso, do impacto que, muitas vezes, estas características facilmente distinguíveis têm no funcionamento social dos indivíduos que as possuem.

Ao pensar sobre a situação, surgem dois pontos que entendo como importantes para perceber o papel destas características na vida de quem as possui. O primeiro ponto aponta para a sua utilidade – grande parte das vezes são características tão inóspitas e singulares que, na verdade, não “servem” a vida do indivíduo, não o auxiliam nas tarefas que desempenha no seu quotidiano. Conhece todas as linhas do comboio, mas não anda de comboio, conhece o nome de todos os dinossauros mas pode não perceber que eles já não existem, sabe precisar resultados de sucessões em série, mas não consegue obter positiva a matemática, pois não compreende como os números às vezes podem ser letras…a característica pode ser fantástica numa primeira leitura, inútil se compreendermos o indivíduo de acordo com uma visão global do seu funcionamento. O segundo ponto está ligado à raridade dessa característica – e aqui joga o factor diferença, pois se há coisa que provoca reacção ao observador é a divergência do comum que possa possuir o observado, sendo que estes indivíduos são geralmente, prejudicados por este sentimento de dissemelhança, afastados por serem “sobrenaturais”, com estas características muito próprias são excluídos dos grupos e desconsiderados do que são as suas reais capacidades.

Enfim, compreender as peculiaridades como uma das expressões visíveis dos problemas e não “vender” a ilusão de talentos… dar o dom da inutilidade a livros e pessoas que valorizem mais o espectacular, ao menosprezar o lugar da pessoa.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 28 de Junho de 2011 by in Uncategorized.

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