Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O dia em que Kant e Aristóteles fecharam os punhos!

"Ora a lei moral, como lei da liberdade, obriga por meio de fundamentos de determinação, que devem ser inteiramente independentes da natureza e do acordo dela com a nossa faculdade de desejar (como motor)” E. Kant

Ambiente tenso, palpitações, trepidação e o odor fiel de um coração jogado em bandeja numa situação de se continuar a ser ou deixar de existir. Diante da morte iminente de um familiar, com idade bastante avançada e que diz muito na linguagem dos afectos, cruzada com um desconhecido na chamada – “flor da idade”, na mesma posição “mortal”, mas com expectativas legitimas de uma maior continuidade futura (dados os limites biológicos, conhecidos da espécie…) podendo salvar um dos dois, qual salvarias?  

Nesta rábula dos filósofos decididos, há a garantia de que Kant defenderia a vida jovem, enquanto Aristóteles urgia em resgatar o seu idoso querido…mas o que está por trás destas escolhas? Destas posições sobre a vida e sobre as coisas…

A reflexão de hoje incide fundamentalmente no conceito que está nas underlines das “óbvias” escolhas destes filósofos – a moralidade. Defensores acérrimos da moralidade, Kant e Aristóteles tinham uma visão bastante distinta do que é encarado como o assumir de uma postura moral perante a vida. Pela situação acima, percebe-se como Kant defende a moralidade dos princípios, não moldada aos afectos e sentimentos mas à ordem natural dos acontecimentos que defende e protege o sentido de integridade social…seria para Kant imoral salvar a vida do familiar de idade avançada pois este tem muito menos “vida para viver”  que o jovem desconhecido…e se há valor maior que o afecto ou proximidade das pessoas é a valia da vida; Aristóteles, por outro lado, defende a moralidade sentida, aquela que é legitimada pelas escolhas que sustêm o princípio de felicidade do maior número de indivíduos possível…escolhas de compaixão e compreensão mútua, daí ser susceptível o salvamento do familiar idoso.

Nesta abordagem extremada, no entanto, exemplificativa de um olhar sobre a moralidade das escolhas, envolve-se o pensar sobre que tipo de moralidade ou que predominância de ideias utilizamos no que são as nossas escolhas no decurso do processo terapêutico.

Se uma maior rigidez e intransigência de funcionamento nos traz o alcance dos objectivos pretendidos, defendendo os tais princípios de integridade e coesão na ordem pré-estabelecida das intervenções ou se o arriscar nas intuições e sentimentos que criamos no decurso das relações pode ser o mais profícuo? Se Kant nos diz que o caminho é este mesmo que seguimos, sem desvios ou rotas alternativas ou se Aristóteles nos desafia a procurar o caminho que sentirmos que devemos seguir, perdendo a certeza do que sabemos que resulta, mas arriscando uma nova resolução?

Como homens inteligentes que eram, penso que Kant e Aristóteles nunca cerariam os pulsos para um confronto de ideais, mas sem pulsos fechados e muito menos intenção de luta, penso que “alimentar” a nossa prática com estas indecisões só é motor de avanço e consolidação do que fazemos. Por isso, parece-me sempre presente o dia em que é preciso cerrarmos em nós os pulsos destes dois mestres…

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

Nota – O terceiro elemento na imagem escolhida é John Stuart Mill, filósofo que defende o princípio da utilidade das escolhas e acções.


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This entry was posted on 5 de Julho de 2011 by in Uncategorized.

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