Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

“Vens ver ou vens viver?”

"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento." Platão

Tal como o ano passado, nesta altura, é obrigatório, por uma espécie de “consciência interna motivacional” falar de férias. As férias, praticadas por alguns, desejadas por muitos, na cabeça de quase todos (e na carteira, infelizmente) são prenúncio de uma realidade distante daquela vivida nos restantes dias do ano, apanágio de um tempo paradisíaco em que sol, praia, calor, família, diversão e excessos (em todos os sentidos) são os ponteiros deste relógio em descanso. Férias…que por vezes não o são! Figuram, de certa forma, como uma representação do que pensamos ser outra realidade, noutro espaço e noutro tempo – invenção desejada que não existe pois se há coisas das quais não podemos fugir é de nós mesmos e de tudo o que é disso consequência.

Quando reflectia sobre este sentido de “realidade distanciada” ou, neste caso, distante, deparava-me com a importância de se viver a realidade das coisas e com a diferença importante entre o conhecer e o ter conhecimento. Destes pensamentos flutuantes, os que consegui “agarrar”, desafiam a que a intervenção psicomotora, as experiências educativas e até as propostas terapêuticas, sejam um acto de conhecer, além do ter conhecimento. Quando alguém tem conhecimento de alguma coisa, não implica que a tenha presenciado, a tenha experimentado, no entanto, pode ter formulado um conceito sobre a mesma – perpetuando o assunto férias, muitos de nós podemos ter uma ideia do que o Brasil significa, a sua localização, o clima, a estratificação social, entre outras características, no entanto, nem todos lá fomos, nem todos experimentamos a verdadeira sensação de estar no Brasil e “viver” aquele local. Na verdade, frequentemente, criamos conceitos por generalização e agrupamento de um conjunto de elementos que abstraímos e simbolizamos em palavras, em imagens “sonoras” ou visuais com que comunicamos. A utilização dos conceitos para designar o que reside à nossa volta possibilita a comunicação, pois os “comunicadores” partilham de uma rede de representações que lhes permite pontes com a realidade. A ideia que se coloca é a de que, por mais exacta que seja esta representação ela não é a realidade em si.

Pois se consideramos que os homens que Platão “grilhou” na caverna não conhecia a verdadeira realidade e apenas as sombras que percorriam os seus olhos (alegoria da caverna), temos que admitir que apenas a experiência directa nos confere esse sentido e nos aprofunda no conhecimento – só assim podemos conhecer, entendendo esta acção como a apreensão subjectiva da realidade concreta, respeitando outros processos e dinamismos que o ter conhecimento de que falava acima.

Assim, privilegiaremos realidades presentes, experiências concretas, vivências corporais das aprendizagens, pois só assim se tocará a realidade em solo próprio, se construirá a base das nossas imagens, se possibilitará a utilização plena dos conjuntos de letras e sons que são as palavras, pois não importa definir o que é largo e estreito, alto e baixo, gordo e magro, grande e pequeno…pois não há melhor aprendizagem daquela que antecede o gesto à palavra.

 

 

P.S – No mês de Agosto, o blog entra num período de férias, para que também o seu responsável possa fazer uso das suas palavras e “conhecer” outras paragens, além daquelas a que “tem conhecimento”.  

Boas férias a todos.

A voltar, brevemente!

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 26 de Julho de 2011 by in Uncategorized.

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