Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O Doutor, o Amor e suas histórias estranhas…

"O miserável receio de ser sentimental é o mais vil de todos os receios modernos." G. Chesterton

Numa das primeiras publicações deste blog, em que, inocentemente, me atrevi a falar desse estranho sujeito complexo chamado amor, prometi não o voltar a fazer – há certas coisas que pertencem mais às “palavras das imagens” do que às de um texto. Porém, torna-se difícil resistir a uma tentação que sustenta de forma tão marcante os assuntos que aqui vou dissecando.

Assim, aqui estou eu…eu a falar de amor. O mais lógico era começar por dizer que o amor é arrebatador, é felicidade, é intenso, é omnipresente, muda, transforma, recicla e faz acontecer isto e aquilo…poderia até falar daquele “amor” que nos apresentam os filmes, os dramas televisivos, os contos de fadas e as bruxas malvadas, mas se falar de amor já é tema suficientemente complicado para abordar, esse “amor” deixo para a crítica corrente dos “opinion makers”, dos especialistas nas palavras fáceis de dizer e atractivas de ouvir – o que quero aqui falar é do amor que se exprime no afecto e na gestão dos sentimentos no decurso da prática terapêutica/educativa.

A evolução da noção do afecto como elemento integrante do processo terapêutico está ainda longe de se encontrar numa fase avançada ou, dito de outra forma, numa fase satisfatória. Para técnicos, professores ou médicos há uma imposição inscrita num “pseudo-supra-profissionalismo” que define que estes “seres sobrenaturais” têm sentimentos como todas os outros, mas não podem ser sentimentais…o senhor Doutor/Professor não se ri, gosta, envergonha, zanga, simpatiza, é sincero ou real…pois se um professor se diverte com os seus alunos, então perde a disciplina, se um médico se preocupa ou incomoda com o problema do seu paciente, então está a ser pouco profissional, se um técnico é sincero ao afirmar as possibilidades parcas de evolução da pessoa, então está a ser demasiado duro – existem “grilhões” intelectuais que limitam que o sentimento seja tido em conta, que a naturalidade da emoção compreendida e entendida pelo técnico/professor/médico seja motivo de reflexão e, mais que isso, elemento a ter em conta no processo terapêutico. Os arremessos desta intelectualidade exacerbada contêm os pregões de uma ética e responsabilidade falaciosas, que facilitam uma facilidade de não comunicação e de paternalismo técnico/pessoa que se sabe desadequado e ineficiente nas terapias.

O argumento não pode morar na manutenção das distâncias e salvaguardas pessoais na relação terapêutica, pois compreendo e realço a sua importância, porém, é parte da gestão emocional, nunca levando à ideia que ter sentimentos e poder mostrá-los é um desrespeito pela integridade da pessoa. Numa visão prática e integrada do sentido ético, poderia até afirmar que a ética recai sobre a questão do afecto – na sua essência é o uso adequado dos sentimentos, de rejeição, afeição, injustiça, intolerância, medo, entre outros, mantendo o respeito individual por cada um dos intervenientes na relação – são respeitados fundamentos profissionais mas, acima de tudo, fundamentos do ser e estar com o outro.

O sentimento não é aquele que contamina o juízo, mas que tem a obrigação de o fazer mais exacto e responsável. Logo, o amor, como sentimento supremo, não se confina, nem se dedica a alguns, o amor é fado de todos, quer se queira quer não, por isso mais vale viver preparado e saber o que o afecto nos torna do que o decidir ignorar e ser por ele tornado em algo que fugimos a ser.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 6 de Setembro de 2011 by in Uncategorized.

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