Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Educar para não “morrer”?

"A inexistência no desejo do outro representa pois, simbolicamente, uma ameaça de morte." B. Aucouturier

Primeiro dia de aulas. A excitação de uma “viagem” mais ou menos conhecida ao mundo dos blocos, das cadeiras, dos cadernos, dos lápis, dos professores e professoras, dos novos “melhores” amigos, do largar sem saudade hábitos antigos e conhecer o desconhecido das novas rotinas. Os pais, essas “crianças preocupadas” surgem nesta fase ansiosos, temerosos e empenhados em dar as condições mais favoráveis para este recomeço. Os professores, na sua maioria, com vida incerta até ao último momento, transportados em “low-cost” e despretensiosamente entre colocações e recolocações, destacamentos e transferências. Enfim, o primeiro dia de mais um ano com missivas governamentais e reaccionárias de remodelação, renovação, reformulação do estado do ensino, da educação, do formar pessoas, do presente que se projectará no futuro…

A educação enfrenta, possivelmente, o maior dos desafios que já fez/faz tremer os homens – Educar tem como responsabilidade “afastar a ameaça de morte”. Na intenção que se faz como paradigma teórico traduzido numa prática pouco polida, há um enfoque gracioso na capacidade que o ensino deve ter no formar da pessoa, no estimular e abrir espaço para a sua individualidade, para a sua criação, produto e processo do potencial criativo e autónomo na motivação e aceitação para a “conquista do mundo”. Com estes princípios engavetados e cobertos por um modelo programático (e tido como excessivamente imperioso?) de transferência de conteúdos, um método passivo de dar informação para encaixar/preencher o intelecto, existe uma solicitação pobre e pouco activa do aluno. Além de deixar “adormecido” o desejo em aprender, em ver respondidos os dilemas e as conjecturas sobre o mundo, por mais excêntricas que sejam, os alunos partilham este espaço de crescimento com professores que, dadas as condições instituídas e, em alguns casos, a comodidade de uma falaciosa ordem e disciplina (que não é mais do que rigidez e vulnerabilidade), encontram-se desanimados, pouco motivados e com interesse diminuído nos “sonhos”, nas capacidades próprias de quem ensinam, na riqueza das suas diferenças e criações – aquelas que não respondem a um teste, a uma pergunta, a uma situação pré-determinada de exposição.

Os alunos esses, crianças e jovens, resistem à ausência de professores que ofereçam uma presença real neste processo, uma presença que tem que ser vivida pelo desejo do professor em marcar a existência do aluno, em se importar para que a criança/jovem se sinta importada, em dar o seu espaço para uma acção que se torne um apelo à interacção e que marque o entusiasmo pela aquisição de conhecimentos, uma procura de relação que afaste a indiferença e a “numerização” dos sujeitos, uma preocupação de fazer a criança/jovem fugir do não ser sentida, da “morte” no seu sentido simbólico (no seu sentido filogenético?).

Talvez com alguma utopia, reconhecendo que sem ela não há avanço possível, a educação precisa de sobreviver a alimentar os sonhos de incentivo e de presença – pois os sonhos sem pessoas são como pinturas invisíveis, sem a vida de quem lhes dá a cor e completa o traço.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 20 de Setembro de 2011 by in Uncategorized.

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