Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O Corpo em todos.

“Há uma pergunta que me parece essencial: movo-me por prioridades ou por emergências?” V.P. Magalhães

Nos caminhos que fazemos e ao olhar para o que vemos, sei não haver nada, que nas pessoas, seja tão comum e ao mesmo tempo diferente do que o Corpo. Na maneira como ele é movido, agido, imaginado, percebido, compreendido, interiorizado, sentido, há uma personalização muito própria, um “sentimento de si”, como diria Damásio, único e inigualável que persiste na marca objectivamente subjectiva das nossas possibilidades. Embora, possa parecer paradoxo, nesta diferença há um sentimento de ligação, um sentimento de espécie, de vida numa concretização que veste diferentes formas e diversas “roupagens” – o corpo humano é, na forma como evoluiu (e evolui), um marcador somático da espécie e um factor de identificação entre os elementos da mesma.

Se na actualidade, a “diversidade de existências” e o modo como é o Corpo integrado nas opções pessoais é direito legítimo, vivem-se conjuntamente tempos em que o Corpo perde o seu lugar de referência no centro das intervenções terapêuticas, dos projectos educativos, da vida das cidades, empilhadas de motores ruidosos, envolvidos em lata, de prédios enormes, lares da impessoalidade, travessas atafulhadas e pouco espaço para o Espaço, pouco lugar para o Corpo. As actividades “modernas” tendem a prender o Corpo a um espaço de expressão e actuação restrito, formatado e num ciclo fechado, encetando uma minimização impressionante de todas as potencialidades do principal motor do desenvolvimento humano.

Este ritmo, por vezes contraproducente, obriga a repensar a importância de uma psicomotricidade que necessita de ser estimulada, trabalhada, no fundo, vivida. O psicomotricista vê com frequência que o apelo a uma intervenção psicomotora surge como resultado de experiências múltiplas falhadas em outras terapias, de ensaios de curas “milagrosas”, de uma esperança a necessitar de esperança para continuar a acreditar e a “batalhar” por melhorias, por mudanças.

Como é sabido, o Corpo é a ferramenta do desenvolvimento, é, num sentido metafórico, o lápis e a folha onde escrevemos as nossas histórias, as aprendizagens e conquistas mais “nobres”, os reflexos e instintos mais primitivos, tudo tem este ponto de partida, em todos há este ponto de partida…Ainda assim, como é colocado o Corpo em último caso, quando o assunto é a procura de soluções? Como compreender esta descredibilização de um pensar integrador e centrado na essência da pessoa?

Ao pensar nesta questão, lembro-me de quando se perde algo e da tendência desenfreada para procurar o objecto “desaparecido” em todos os cantos, menos no mais óbvio…de certa forma, não sei se será isto que se tem feito, inverte-se a ordem da lógica e foge-se à natureza do que em nós é mais patente, do que devia ser o primeiro recurso, uma aposta prioritária!

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

3 comments on “O Corpo em todos.

  1. Days
    6 de Outubro de 2011

    Este post é fixe.

    É verdade que o Corpo é comum, porque todos o temos, e ao mesmo tempo diferente, pela maneira como é utilizado. Embora um retrato de algo mais, do cérebro. O que seria um corpo sem um comando central? Um mero bocado de carne e osso.

    O corpo é o nosso corpo, e é assim, porque para além de se conseguir reproduzir num sistema de controlo (eu atiro uma bola ao ar e em todas as fracções de segundo seguintes recebo informações da posição da bola, o que me vai dar uma percepção do futuro…que eu posso controlar, desviando a minha mão para a esquerda ou para a direita para a apanhar novamente), é também um fruto do nosso passado no que toca às características externas, visíveis ao nosso olho. É um resultado do próprio produto do corpo, do que este desenvolveu ou não.

    Bem…mas na verdade eu (cérebro) é que decido o meu objectivo, logo o corpo vem atrás… E rapidamente nos apercebemos da dificuldade de chegar ao destino, de por exemplo, chegar a um cesto de basquetball quando os os ‘pros’ o fazem tranquilamente. É necessário, portanto, uma adaptação. O corpo terá de se moldar.

    O cérebro projecta e o corpo “nasce”.

    Até aqui tudo tranquilo, mas…e que tal trocar isto tudo?

    Tenho conhecimento de um estudo que pretende demonstrar que a crescente exponencial da utilização de computadores, do teclado, activa certas componentes no cérebro que são responsáveis pelo processo de raciocinar. Ou seja, o simples movimento dos dedos a teclar, poderá ser um factor de peso no desenvolvimento cerebral do ser humano, numa escala de centenas ou dezenas de anos. (Teclados, ou seguintes tecnologias de interacção).

    Isto é que é intrigante, não o que nós podemos fazer pelo nosso corpo, mas sim o que o nosso corpo pode fazer por nós. Nós, a mente.

    Às vezes penso na imagem do ser humano, num futuro distante, interrogado com a forma, o molde do nosso corpo. Seremos magros, ágeis, rápidos e altos? Ou gordos, lentos e baixos? Será que precisamos dele? Ou encontraremos alguma forma de conjugar a mente num corpo automatizado? Com o rápido desenvolvimento tecnológico, o básico conjunto de carne e osso poderá ser ultrapassado, o auxílio da máquina seria de maior utilidade.

    Um corpo é só um corpo, é o meu meio de transporte para me dirigir a outra pessoa, porque tenho necessiade de trocar informações com ela.

    Resta-nos, então, a consciência…

  2. Luís Fernandes
    6 de Outubro de 2011

    “Isto é que é intrigante, não o que nós podemos fazer pelo nosso corpo, mas sim o que o nosso corpo pode fazer por nós. Nós, a mente.”

    É mesmo isso que além de “intrigar”, faz prova assente da importância do corpo no desenvolvimento, de no seu sentido mais concreto não ser apenas carne e osso, mas tudo o que constroi o que somos, pois tal como um maestro numa orquestra, a mente não toca sem músicos, e no fundo para que tudo corra bem, convem que eles sejam bons, portanto é nos processos corporais que reside a essência das coisas, é dai que nasce a consciência…A consciência é o produto concertado do corpo compreendido e integrado no espaço e no tempo, que nos faz agir de acordo com o que queremos(na maioria das vezes). Eu sei, mais ou menos onde a bola vai cair e movimento-me nesse sentido porque tenho uma somatognosia (conhecimento do corpo), receptores sensoriais que me dão informações do ambiente exterior, imagens sensoriais integradas sobre a possivel direcção da bola, do seu peso, da sua força face à velocidade que toma (percepção espaço-tempo), as affordances!
    A mente, o cérebro junta tudo, mas esse tudo tem origem corporal e neste sentido, o corpo surge como elemento fundamental do que somos, nesse sentido somos Corpo antes mesmo de sermos mente! ou noutra visão, Somos Corpo/Mente por serem os dois demasiado ligados para serem dissociaveis, foi o erro de Descartes que fundamentou a dissociação dos dois conceitos e prejudica um pouco a visão das coisas!

    Obrigado pelo comentário!

  3. Days
    12 de Outubro de 2011

    Bem, a questão remete sempre para a conjunção ou disjunção corpo/mente, sim.

    É complicado.

    Físicos defendem que o mundo que nos rodeia não é mais que uma espécie de holograma a que chamamos realidade, que se encontra num curtíssimo intervalo de uma infinidade frequências.
    Temos a particularidade de a ver, de interagir, de tocar.

    Ou seja, a materia fisica é o resultado da uma frequência, se esta é alterada por alguma perturbação, a estrutura muda (se eu chutar uma bola, não só esta mas também a minha perna vão alterar a sua estrutura durantes uns instantes, no impacto [se alterar muito a frequência o resultado pode ser catastrófico] ).

    A sociedade desperta-nos stresse, cria um sentimento de culpa do que fizemos e de preocupação do que iremos fazer, estamos perante o medo, que se traduz num estado de vibrações lentas. (Neste momento o nosso corpo reflete tudo isso, através das várias “saídas do sistema” que poderão ser observáveis, lidas, interpretadas).

    Mas a sociedade é resultado de uma criatividade no cérbero, de uma consciência vibrante na fonte da mente, que por sua vez é a fonte da matéria (que afinal não existe).

    Bem, sem querer entrar mais no hiperspaço, acredito que o corpo e a mente sejam um conjunto, em que o corpo pode funcionar como uma “entrada” ou uma “saída” do nosso pensamento, consoante a situação decorrente. Quer eu pense que neste momento tenho sono, quer eu boceje e me espreguice, tudo é informação…

    Informação que será captada (corpo) e tratada (mente).

    Cumprimentos.

    “Nao existe materia, existe força que leva a vibrações de partículas.” Max Planck

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This entry was posted on 4 de Outubro de 2011 by in Uncategorized.

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