Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Nem só pela boca morre o peixe…

“A partir de um certo ponto, não há retorno. Este é o ponto que é preciso alcançar.” F. Kafka

A velocidade a que giramos e fazemos girar o que nos rodeia é saber a imperativa aprendida da resposta rápida, pensamento imediato, resultado direto das escolhas ou ações – rodamos mais rápido que o mundo que fazemos rodar. As ponderações e os momentos de reflexão sobre o que está implicado na afirmação das nossas intenções/entendimentos, não é muito mais que a procura do saber e conhecer o melhor das mesmas, as suas consequências que se querem positivas. Assim, gostamos de chamar a esse conhecimento, um conhecimento preditivo, de antever as coisas que ainda não são por aquelas que já existem. Pois neste funcionar, como “medimos” os side effects destes projetos de ser? Como sabemos o que é mais adequado escolher por prever o que pode resultar dessa opção?

No âmbito terapêutico, muitos estudos e postulados têm marcado a dúvida “eterna” sobre as consequências na escolha de uma terapêutica farmacológica para uma criança ou adulto, sobre os efeitos primários e, sobretudo, secundários das chamadas “drogas”. Neste sentido, tem existido uma corrente de anti-medicação forte, levantando um paradigma de intoxicação desnecessária ou adormecimento induzido das vidas daqueles que precisam…envolvem-se na discussão os lobbies empresariais e farmacêuticos e a ética da intervenção é assunto “tocado” pela rama, aflorado na tentativa de contra-argumentar uma prática, não abordando o lado oposto, ou seja, um lado de ética profissional de defesa de uma atuação e de um estar perante o paciente – lado esse que deve ser expresso no que é feito e não apenas no que não se deve (pode?) fazer.

Ao ficar fora desta discussão frívola e pouco sapiente, pois não se discutir o ponto fulcral de uma atitude que está muito antes do sim ou não à medicação e engloba uma dimensão mais inteira da intervenção – o respeito pela integridade e individualidade do paciente, acima dos interesses técnicos – destapo antes o pensar, na atenção que “merecem” os efeitos das terapêuticas que não passam pela farmacologia e que tocam outras áreas (psicologia, psicomotricidade, terapia da fala…entre outras), pois estas não logram uma espécie de “asilo politico” na responsabilidade que têm, precisam ser medidas e avaliadas as suas consequências na vida dos que lhes dão vida.

A relação humanista de uma terapia é também ela um campo de riscos, o risco de dependência, de desadequação de práticas, de marcar na vida de alguém um momento de insucesso face à possibilidade de mudança e readaptação…pois tal qual se questiona a eficácia e efeitos da medicação, também estas variáveis das outras terapêuticas devem preocupar e centrar atenções na discussão pública e intimista das perceções de cada um.

Por vezes, há que preocupar o que não entra no organismo pela boca, pois nem só por ela “morre o peixe”, há que perceber se nas janelas da relação as luzes se iluminam ou subsistem como contínuos de escuridão…

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

One comment on “Nem só pela boca morre o peixe…

  1. Rute
    2 de Novembro de 2011

    Antes de mais quero deixar aqui os meus parabéns pelo blogue, tenho vindo a seguir os posts e são sempre uma óptima forma de me fazer questionar a nossa prática.
    Este post pareceu-me especialmente importante, uma vez que, parece que muitas vezes na hora de medicar alguém não se tem em conta como irá ser a progressão, se a pessoa irá beneficiar de uma terapia ou simplesmente “ficar em casa”, ou se pelo contrário irá frequentar uma terapia, quais os beneficios e aí o papel da terapia farmacologica. Parece-me que muitas vezes se medica porque sim, porque é necessário e vê-se o paciente naquele ambiente fechado, isto é alarmante! É importante darmo-nos a conhecer enquanto terapias para que não tenhamos pessoas com futuros confinados a medicamentos.

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This entry was posted on 2 de Novembro de 2011 by in Uncategorized.

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