Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Maslow e os egípcios de pernas para o ar!

"Se apenas temos um martelo, temos a tendência de ver todos os problemas como um prego" A. Maslow

As coisas às vezes estão trocadas, vão-se baralhando quereres e fazeres e o que resta é o nostálgico das coisas que já foram, na sua presença, no seu efeito. Se hoje fossem vivos os egípcios, além de terem que andar mais vestidos, iam ficar espantados pela forma como viramos os seus pressupostos de pernas para o ar e fizemos dos seus inícios os nossos fins num contraciclo supostamente evolutivo das existências. As múmias continuam a existir, atadas e enroladas em “cordas” resistentes, mas agora vivas ou meio-vivas, deixo ao vosso critério. As pirâmides são metáfora para o que priorizamos, mas estão invertidas nas exigências que fazemos – pois tem assutado incrivelmente pouco o desequilíbrio de uma pirâmide invertida e feito pensar ainda menos a sapiência das palavras de Maslow quando nos falou na ordem “natural” do precisar.

Maslow organizou as ações humanas como uma intenção de satisfação das necessidades, uma hierarquização que começa na base com as carências fisiológicas, seguindo-se a segurança, ao amor/relação, a estima e, por fim, a realização pessoal. Para saciar certas necessidades, as de base estariam que estar preenchidas – para construir uma torre de blocos, tenho que começar por os encaixar na base. Assim, apesar das limitações que tem um modelo pouco dinâmico na assunção e compreensão das motivações do ser, a premissa de pensamento que esta organização lança na análise ao comportamento humano é de valor inesgotável.

Se vemos exigir “mundos e fundos” de níveis superiores desta pirâmide que somos nós, quantas vezes descuramos a base do que é imprescindível? Na escola, na família, nas terapias, habituamo-nos a ser exigentes nos pedidos, a procurar no outro as coisas que pensamos ser o seu melhor, mas o esforço resulta quando são abandonadas outras necessidades?

Na sala de aula, quer-se criatividade, solução de problemas, pensamento imaginativo e lógico, pedem-se coisas do topo da pirâmide, com frequência dão-se poucas da sua base, pois o que não faz falta e existe em excesso são aprendizagens em ambientes pouco seguros e contentores, que valorizam parcamente a confiança, a auto-estima e o respeito aos e dos outros.

No ambiente familiar, quer-se os trabalhos de casa feitos, um bom comportamento e uma moral aprimorada copiada dos pais, no entanto, algumas vezes, falta o espaço para ser cuidado, cuidar, ligar-se ao outro e relacionar-se.

Nas terapias, procuram-se respostas, soluções adaptativas, melhorias na escola, em casa, no carro, no jardim, porém a passagem “por cima” da pessoa e das suas necessidades é inconscientemente tentadora e inverte, também ela, a ordem natural das prioridades.

Desconstrói-se uma das mais belas e fantásticas obras da antiguidade egípcia, perde-se a arquitetura do nós ao, tal e qual múmias, viver atados com as metas e os finais das viagens, ao querer chegar ao topo sem passar por baixo, pois falta existir um desejo latente em não mover as peças no balancear prejudicial da estrutura do que somos e precisamos ser.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 15 de Novembro de 2011 by in Uncategorized.

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