Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Génesis

 

"O acto de criação é de natureza obscura" Eugénio de Andrade

Tudo tem um começo, umas coisas têm um final, outras perpetuam-se, outras não chegam a existir e, por isso, não fazem por não se verem. Das mirabolantes “viagens” da vida, dá vontade de acreditar, que não há coisas mais difíceis que os recomeços…a luta contra o que se quer que seja na negação da expectativa (esperança?) de ser o que já foi. Como o que já foi, lá foi já deu, sobra a motivação e o empenho necessário para fazer as novas coisas acontecerem.

Na intervenção terapêutica não encaixa o contraciclo das regras de vida, não há antíteses ao modo como estes processos de “construção de novo” são intricados e colocam desafios enormes a quem os encara. Aos técnicos das mais diversas áreas, juntam-se histórias de destroço, “edifícios” frágeis que esperam continuamente os ventos que os derrubem de vez, ou os “nortes” que viram a vida do avesso para num clique tudo mudar, tudo ser diferente. Porém os recomeços não são começos do zero, são antes o levantar de um estado que nos agarra mais atrás, às vezes, um puxar de uma corda que não existe, de uma força que ainda está para ser inventada em cada um. Se depois de a pedra ser jogada, o mais que se pode fazer é vê-la cair onde ela se prepara, há muito por fazer nos sitos onde ela cai – os recomeços começam com o recolocar dos efeitos do que foi o anterior, para depois se realizarem novas existências, novos sentidos. Para muitas pessoas, os fatos que vestiam e vestem confundiam-se e confundem-se com a pele que eram e são, e isso, isso custa a desbloquear, isso demora a fazer diferente. O hábito dos modos de funcionamento, mesmo que prejudiciais, são a distracção das coisas que andam à volta da vida que se leva, pois penso, ainda, nas inúmeras vezes em que o processo terapêutico se move ao redor da necessidade de um olhar focado sobre o que faz de nós quem somos ou, melhor, o que faz de nós um desejo de alguém que se quer ser e não se consegue.

O processo terapêutico será assim um falacioso recomeço, pois é antes uma mudança sustentada, que se alimenta do que era, para vir a formar as coisas que são para ser.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

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This entry was posted on 22 de Novembro de 2011 by in Uncategorized.

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