Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O problema do lápis sem bico.

"Eu sou um céptico profissional. Vivemos num mundo de mentiras sistemáticas." J. Saramago

Num outro dia reflectia o quanto o que somos vive atraído pelo desejo ávido e compulsivo pelo novo e original, ao mesmo tempo que se recosta na inconsciente acomodação do que é habitual, metódico e persistentemente igual. Da sociedade exigem-nos ideias criativas, pensamentos diferentes que afirmem uma identidade, que construam uma imagem de “marca”, algo que apenas surge como nossa propriedade, a partir do momento em que é nossa criação. Mas até onde existe o espaço para a criação? Quão podemos ser dissemelhantes na inovação?

No plano terapêutico, a incrível proliferação de terapias e métodos de intervenção sobre tudo o que são problemáticas tem sido voraz e arrancando em aceleração nos últimos anos, no entanto, entre gadgets especiais e técnicas de um vintage supostamente utilitário, existe um esforço, por vezes narcísico de reinventar as intervenções, torná-las imagens comercias de uma eficiência que se quer “espalhada” e defendida, no matter what. Os novos projectos terapêuticos além de, muitas vezes, pouco comprovados a nível cientifico e com aplicações práticas do mais bizarro que pode existir, redundam no erro ambicioso de criar do nada, de quebrar com o que de bem feito já se faz e de desejar uma exclusividade de práticas que não representam mais que um caminho rápido para a ineficiência, para a inutilidade.

De que serve um lápis que faz mil e uma coisas mas não escreve? As cadeiras que voam mas não nos deixam sentar nelas; talheres que falam mas não seguram o que queremos comer; sapatos que brilham mas que não podem assentar no chão; soluções que nada solucionam?

Pelo que vou descobrindo deste mundo chamado intervenção terapêutica, sei da importância de não ter medo de arriscar e da riqueza extraordinária das coisas que são diferentes, na sua expressão, na sua aplicação, na forma como quebram os registos de insucesso e desacreditar que as pessoas tantas vezes possuem. Porém, não há como nos sabermos reinventar sem saber que caminhos percorrer, não há como criar desligando a atenção daquilo que muitos outros já edificaram e que marca com afirmação anos e anos de êxito neste campo.

O lápis poderá vir a falar, ter saber, contar e rir, pois não deixemos nós que passe a hora em que ele pode, até mesmo, continuar a escrever…

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

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This entry was posted on 30 de Novembro de 2011 by in Uncategorized.

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