Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Intenção, informação e sexualidade…

"Vive-se o mais de informação: o que vemos é o menos; vivemos da fé alheia: o ouvido é a segunda porta da verdade e a principal da mentira." Baltasar Gracián y Morales

Isto é capaz de vir a ser polémico. O tema é sensível e como poucas coisas na vida, toca a todos, metafórica e literalmente, aparte floreados. Há umas semanas passava num canal televisivo uma reportagem curta sobre a temática da sexualidade na deficiência, factos, opiniões e como foi dito um “levantar” de questões que passam ao lado da população que não se encontra envolvida directa ou indirectamente com pessoas com condição de deficiência.

Ao ver a reportagem senti ser um daqueles momentos televisivos em que a intenção clara de comunicar uma verdade que necessita de emergência, atropela o cuidado, o cariz complexo e o carácter possivelmente eficiente da informação que foi passada. A evidência da sexualidade ser algo inerente à vida de todos nós e não uma opção, ou possibilidade dependente da condição em que a pessoa se encontra, acaba por ser jogado para segundo plano, quando a problemática sentida pelos entrevistados (“desconduzidos” pela jornalista) se foca na satisfação do desejo sexual, ora pela masturbação ora pela defesa de casas e senhoras que o possam fazer. Esta “sexualidade”, centrada no ímpeto sexual, como foi tratada, usurpa o espaço de direito individual de cada um de nós, para se alojar na condição de dever dos outros para com a pessoa com condição de deficiência, o que cria problemas vários de diversa ordem – serão as famílias negligentes se não conseguirem satisfazer estes ímpetos? Estarão os técnicos a fazer um trabalho incompleto? A prostituição é um caminho, é uma solução, mudara a forma como vemos e como é vivida a sexualidade na deficiência?

Sem dúvida que estas são questões muito delicadas que a reportagem fez o favor de “roçar”, mas sem as explorar, o que cria um sentimento de informação confusa e difusa, que acaba por sair rotulada com a ideia que desperta as pessoas pela sua vertente mais polémica – casas de prostituição para pessoas com deficiência.

Não há como prevermos o efeito desta desinformação ou, na melhor das hipóteses, desta informação incompleta e pouco virada para as soluções (claramente colada aos problemas…), porém, para mim, esta reportagem foi como ver uma casa a arder, chamar à atenção da mesma, mas ficar ao lado dela, sendo cúmplice da piromania…alarmou-se as pessoas para a existência de uma sexualidade nas pessoas com condição de deficiência, dos desafios e preconceitos que este tema enfrenta mas, no final, a solução é para a satisfação sexual e fica engavetada em resoluções que, no mínimo, me deixaram perplexo – se há coisa que eu não gostaria, era que me reduzissem a sexualidade ao contentamento do desejo sexual, era capaz de ser desrespeitoso, no mínimo.

Questões sérias implicam debates complexos, com vozes a vir de diferentes áreas e dentro das áreas de diferentes pessoas. Questões sérias implicam pensar no que se passa como verdades absolutas, cuidar as palavras para elas saírem como se quer e, mais que isso, para ficarem as que mais importam. Questões sérias obrigam à reflexão, muito mais que à procura de um populismo demagogo de um objectivo onírico e utópico de possibilidade de resolução pela massificação pública dos conteúdos…

A intenção foi brilhante mas, desta vez, não diria que “morreu na praia”, porque faltou enterrar mais os pés na areia…

http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/nas-asas-do-desejo-grande-reportagem-vi24-reporter-tvi-alexandre-borges-sexualidade-adolescencia/1292236-4071.html

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

One comment on “Intenção, informação e sexualidade…

  1. Rita Carreira
    6 de Dezembro de 2011

    Olá Luís,

    tive a oportunidade de visualizar a reportagem e também concordo com o teu ponto de vista. No entanto, no que diz respeito à mensagem jornalística implícita, (infelizmente) há que entender que esta reflecte uma enfatização urgente e descritiva, de modo a apelar à atenção por parte do público.
    A possibilidade de anunciar soluções, no âmbito da manifestação ou satisfação sexual na deficiência, implica (implicará) alterações conceptuais e sócio-culturais de ordem geral, onde profissionais e técnicos como nós também se encontram incluídos.
    A necessidade de debater, informar, estudar, avaliar e sugerir propostas inovadoras requer a sua cota parte de cuidado, especialmente quando os padrões sintomáticos de deficiência sensorial, motora e intelectual são variados.
    As questões de carácter ético e moral, associados aos direitos do ser humano, sempre constituíram motivo de avolumadas discussões. Isto porque, na maioria dos casos, as consequências de determinadas manifestações comportamentais induzem a situações de risco ou de dimensão incalculável (por ex.: gravidez, acréscimo do número de convulsões ou insuficiências respiratórias/cardiovasculares, de acordo com o tipo de deficiência em questão). Este aspecto reforça a importância de agir criteriosamente, no momento de aconselhar ou informar sobre esta temática.
    Em relação aos parâmetros da sexualidade (dita normal), apenas nos últimos anos certas condutas começaram a ser aceites, por parte da sociedade (quando comparadas com outros países, tanto ideologicamente como politicamente). Actualmente, pela evolução do estatuto e do grau de importância social das pessoas com deficiência, acredito que o debate destas questões poderá apresentar um peso significativo de futuro, contudo temos de ser pacientes.
    No que concerne à preocupação multidisciplinar de distintos profissionais, provenientes de diferentes áreas e quizás países sobre esta temática, importaria ainda frisar que existem outras entidades, cuja formação e capacitação seria mais pertinente: pais, enfermeiros, auxiliares das instituições, etc. Isto porque, na maioria dos casos, os responsáveis pelo cuidado diário dos cidadãos com deficiência encontram-se mais expostos a este tipo de situações rotineiras.

    Beijinhos e espero por mais publicações!
    Rita Carreira

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This entry was posted on 6 de Dezembro de 2011 by in Uncategorized.

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