Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O Lego tem vida própria!

           

"Não te ponhas a pedir o que não pretendes obter!" Seneca

Uns que acreditam e sabem que conjecturam, outros cheios de opiniões que têm, usam e abusam, mas que delas fogem por querer ser diferente ou ter medo de não saber arriscar e tomar parte. Vivemos num mundo de hipóteses explicativas e narrativas de tudo e todos, ignorando as coisas que se dão sem explicação, fazemos histórias pela fantasia efémera de querer dar à vida ordem e à ordem um sentido natural de existência.

            No fundo, nas mais diversas áreas procuramos desenfreadamente criar “história” do que vemos, narrativa nos acontecimentos – significado  explicativo, causal e composto das realidades observados. Esta (in) capacidade é, talvez, o espelho maior das pré-disposições biológicas que possuímos para nos ligarmos ao conhecimento e desbravar o mundo que nos rodeia – o desenvolvimento evolui no sentido de acompanhar a curiosidade e as ferramentas que vamos utilizando para a fazer desvanecer, até voltar a aparecer de outra forma, com outra ambição. Assim, nesta altura, os que lêem devem-se perguntar os porquês escondidos dos parêntesis e do que lá dentro vem nas linhas acima – o hábito pré-disposto de narrar realidades leva-nos, com uma frequência maior da que queríamos e superior ao que nos damos conta a procurar tudo que possa reforçar o que queremos narrar, tudo que venha ao sabor do que procuramos, tudo o que sirva para nos justificar as justificações que damos. A esta atribuição, a que chamaria de “inerente” ofusca a verdade do que nos rodeia e deixa-nos limitados ao pior dos nossos cenários – a encarceração nas ideias de si.

            Quantos de nós já não acreditaram tão fielmente numa ideia que todos os dados que conseguimos foram “reciclados intelectualmente” para lhe dar força? Mesmo quando esses dados nada explicam ou contam sobre a ideia que construímos. Tal qual peças de Lego que vivem sem permissão, montamos dados, supostamente, preditivos de coisas em que acreditamos, quando, na verdade, estes nada dizem ou na sua essência não prevêem acontecimento algum – os mercados bolsistas fazem constantemente isso, aliás, vivem disso. Observamos um conjunto de galinhas que não voam e, só por isso, tomamos como certo que nenhuma pode voar, generalizamos com facilidade e mais que isso, procuramos dados que confirmem as generalizações, poucas vezes, os que as podem deitar abaixo.

            Desafio a reflexão para combate às tendências, como disse, “inerentes” e o pensar que permite a libertação desta in (capacidade) de adormecer as peças que ganham vida e por natureza se tentam encaixar em lugares amovíveis e pouco articulados…

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 20 de Dezembro de 2011 by in Uncategorized.

Navegação

%d bloggers like this: