Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

A fábula do espelho teu!

"A memória é um espelho onde observamos os ausentes." Joseph Joubert

Que bom seria se eu tivesse preparado para saltar como o Nelson Évora, nadar como o Michael Phelps ou desbravar a tecnologia como o fez Steve Jobs…enquanto isso, vou entretendo as possíveis frustrações destas inconquistas com o simples saltar das poças de água, as braçadas amadoras num mar salgado ou repleto de cloro e a irresistível tarefa de inventar máquinas impossíveis que pudessem satisfazer as minhas apelações preguiçosas. Neste entretimento mais ou menos sério sinto-me objectivamente a objectivar as minhas intenções e nos meus passos para as metas, estou cada vez mais perto, pois não há nada mais perto que um caminho feito por nós…

Pois, é sobre isto que me importa pensar, sobre a forma como balizamos os nossos objectivos face às aquisições e consecuções individuais no contexto terapêutico/educativo e como estes enquadramentos vão marcando o sucesso que lhe atribuímos e a satisfação decorrente deste. Não há técnico ou educador que em alguma situação não se tenha sentido de alguma forma frustrado porque esperava mais da pessoa, queria nela um caminho maior, mais rápido, mais satisfeito, feito de mais, mais e mais…na ânsia desmedida de um pretender melhor para o outro, que tapa as possibilidades de o processo terapêutico se sentir concretizado e útil para os dois lados – o técnico/educador duvida da sua capacidade de ajuda, a pessoa sente que não chegou ao esperado. A tendência para pedir à tartaruga para ser tão rápida como a lebre ou ao anão para chegar mais alto que o gigante valoriza pouco o esforço e o que se levou para chegar a um certo patamar, um certo estado. Pedimos a um “velocista” das letras uma composição de 15 linhas e contentamo-nos com as 13 esforçadas, pois no reverso, exige-se a mesma composição a um “motor pouco oleado” e a concretização de 6 linhas é vista como um fracasso, mesmo que nunca antes tantas linhas tenham sido por este percorridas. Nas tentativas igualitárias carregadas de uma heresia à individualidade e legítima diferença, tornam-se cegamente idênticos os critérios e não se avaliam os avanços de quem não chegando à meta, nunca ficou tão perto desta – os processos estão desvalorizados e as diferenças entre ponto de partida e chegada estão presas no sótão, fechadas à chave pela comparação à média, à norma ou, tantas vezes, ao outro que nos está mais próximo.

Diria que o maior “azar” que nos pode calhar não será partir o espelho, mas olhar sempre para um que não é o nosso e pensar que somos nós, agora ou no ainda.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

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This entry was posted on 25 de Janeiro de 2012 by in Uncategorized.

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