Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Solitário

"A consciência é um produto social” Karl Marx

Outro dia estava a pensar como são inteligentes e astutos os informáticos transformando acções que antes eram humanizadas em computações hábeis de imaginação e utilidade, reduzindo o esforço humano e tornando-o, de todo, mais eficiente e menos belo. Ainda assim, pensava como poderiam ter escolhido melhor nome para um dos jogos mais famosos que conheço – o solitário.

O solitário, a diversão individual de encaixar cartas de cores diferentes em fileiras que teimam em se mostrar enigma perante a atenção e desespero do jogador, que quando, finalmente, consegue colocar uma carta no local certo e desbloqueia um caminho de jogadas ambicioso, outro mistério lhe esbate prontamente a seguir e obriga-o a abrandar o ritmo de jogo e a chamar espaço à reflexão e pausa à apreensão – e ou me engano muito (o que é claramente possível) ou isto é, perto da exactidão, o que corre nas nossas relações sociais e o jogo intricado de estar e ser com o outro.

Mesmo extravasando o contexto terapêutico/educativo, a relação com o outro é um “jogo”, uma corrida irregular e sem sentido marcados, de avanços e recuos, que tende a bloquear, a ficar presa e parada em locais chamados de não resposta, em sítios infindáveis de silêncio e ausência, em esconderijos de indiferença, em recobros de agitação e conflito em que as cartas a jogar não parecem encaixar e nos deixam esbatidos nos impasses que fazem parecer não valer o que se pode tirar deles – Quem no contexto terapêutico/educativo não sentiu já esta dificuldade em jogar?

Sem esperar, o que o esforço conjunto faz transparecer, repentinamente, os elos ganham nova forma, as “pernas” que tão paradas estavam ganham vida e a relação avança, desbloqueia, descobrindo-se na descoberta das novas soluções e conexões entre os participantes – Quem no contexto terapêutico/educativo não passou já por este desenvolvimento rompante da relação e conexão com a pessoa?

Depois, logo após o vislumbre da ligação e o avançar das intenções, surgem novos desafios que obrigam a abrandar, a contornar e a examinar vezes sem conta a condução, pois não há jogo como o relacional e não há riqueza como a que colocamos na importância dada à relação nos contextos educativos/terapêuticos – Somos animais relacionais, mesmo antes de racionais – Quem no contexto terapêutico/educativo não sentiu já que a relação pode tudo mudar?

A verdade é que o solitário computorizado serve para um jogador mas bem que podia ser o espelho de uma cabeça minha, tua e de tantos outros a pensar sobre como as relações determinam os ganhos e as perdas no que fazemos.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

2 comments on “Solitário

  1. Yvan
    9 de Fevereiro de 2012

    É engraçada a comparação entre o jogo computarizado e o “jogo” relacional. Ao ler o que acontece no Solitário, passaram-me na memória assim de rompante uma série de jogos tradicionais que utilizam um tipo computação parecido, por exemplo o Pac Man, que é bem mais dinâmico, mas que no fundo temos de tomar decisões para fugir dos fantasmas, em que algumas nos levam a becos sem saída e…Game Over!

    Na verdade, se pensarmos mais um bocadinho, podemos verificar que (talvez todos) os jogos seguem um tipo de lógica ramificada pelas nossas decisões.

    Mas agora “connecting…” :

    Pergunto-me, porque será que gostamos de jogar? Porque é que nos damos ao trabalho de ter de tomar decisões sobre que caminho tomar? É estranho…

    Parece existir algo na nossa consciência que nos faz procurar este desafio, esta vontade de conflito. Talvez num relacionamento com um próximo se passe o mesmo.

    Temos uma forte necessidade de ultrapassar os obstáculos, mas simultaneamente, parece que não vivemos sem eles. Assim que estes deixarem de existir, não temos mais nada por que pensar, por que trabalhar. O próprio Karl Marx dizia que o Homem precisa de trabalhar para ser feliz, só assim se sentiria bem com ele próprio. Acho que posso ligar isto a um trabalho numa empresa, a um exercício académico, um jogo de futebol com os amigos, um jogo de computador, ou a um relacionamento.

    Podemos muito bem até criticar o facto de ter tanta liberdade de escolha, tanto obstáculo, tanta decisão a tomar de modo a obter uma forma de chegar ao nosso confortável sentimento de victória, de conquista por termos trabalhado sobre um problema.

    Nós gostamos de problemas, gostamos de os ultrapassar, se por mérito nosso.

    Mas agora já não há que fugir dos fantasmas, passámos o jogo!

    (Espera lá, quererá isto dizer que é outra vez Game Over?)

    • lusfernandes
      27 de Fevereiro de 2012

      A leitura face aos problemas é a mesma que a minha, acho que gostamos dos videojogos porque nos dão um espaço controlado e seguro para se poder falhar e decidir mal, porque depois, na maioria dos casos, desliga-se o jogo e a consequência emocional do mesmo tem um efeito difuso e pouco acentuado (com exclusão de casos patológicos)…Os jogos são simulacros de coisas reais que nos colocam à vontade para poder experimentar decisões e caminhos…

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This entry was posted on 31 de Janeiro de 2012 by in Uncategorized.

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