Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Visto-me sempre que tiro os sapatos.

“O homem é livre, mas ela encontra a lei na sua própria liberdade” Simone de Beauvoir

Brr…escrevo estas palavras com um frio que dizem ser polar, vindo das profundezas gélidas para nos fazer uma visita a nós que gostamos de nos apregoar de à beira-mar plantados com o calor como alíado. O frio que congela a ponta dos dedos acentua ainda mais a rapidez do pensamento e a forma como deixa para trás a expressão do que vamos reflectindo (em demasia sobre a crise, infelizmente…). Fez pensar em meias, sim, meias – o receptáculo peludo dos pés para os proteger e dar, fundamentalmente, calor.

Nuns pensamentos em muito direccionados para terapeutas/educadores habitualmente rotinados e com um privilégio imenso de desenvolver a sua prática num ginásio, indago o uso que dão aos sapatos. Quem diz sapatos, dirá roupas que pela sua natureza dão à motricidade um carácter empacotado e de restrição, que deixam marca, ou “cobrem” disponibilidades – pode-se apelidar de assunto trivial, secundário ou sem importância, mas como psicomotricista sinto-me tal e qual Anteu, que só mostrava a sua força quando estava em contacto com a terra, ora bem, as minhas “terras” profissionais são pavimentadas e a força vem de um ciclo que o pormenor torna pormaior numa intervenção terapêutica – conforto e disponibilidade redundam em possibilidade. Acima de tudo, estar numa relação terapêutica é estar consigo mesmo, muito antes de estar com o outro, logo a preferência por um estado de conforto e libertação maior resulta num aumento de possibilidades que, mesmo não parecendo à partida, multiplicam as realidades e dão curvas ligeiras ao rumo das coisas – e neste ponto, todos sabemos que muitas curvas ligeiras dão um novo caminho à “estrada”. A experiência sensório-motora vivida num contacto confortável com um ginásio enriquece o intuito e o que chamo de “percepção terapêutica” dos momentos, intensidades, ritmos e pressão das propostas, o que dá à intervenção outra qualidade e intencionalidade. Como se tudo isto por si só não bastasse, outra questão se edifica e esta remete para o efeito de comunicação que tem com o outro – imagem de abertura e marca decalcada do espaço ocupado – “Aqui pode-se muita coisa! E são essas coisas que vamos explorar! Não são precisas meias (entenda-se entraves) pois aqui o mais importante somos nós”

Na verdade, talvez eu procure dar algum uso aos habituais presentes de Natal peludos e que deixam todos mais ou menos (a mim mais!) frustrados ou então, talvez esta nuance faça a diferença…na incerteza das opiniões, nada como  experimentar – os sapatos estão a precisar de férias e os pés de cheirar a liberdade.

 

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 14 de Fevereiro de 2012 by in Uncategorized.

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