Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Folha de presenças.

"Não se pode encontrar quem está ausente” Oliver Sacks

Na semana passada estive ausente deste espaço de ideias e, tal como faço epíteto neste novo pequeno texto, se estive ausente, não me consegui encontrar – no tempo, no espaço e talvez no lugar das ideias que me induzem a refletir e aqui partilhar convosco as mesmas.

Estar ausente é não se conseguir encontrar, ou não se conseguir encontrar é estar ausente – enigmático como a troca de ordem destas palavras abre sentidos tão diferentes na nossa compreensão. Se a primeira frase nos leva a pontuar a importância que tem sermos encontrados e percebidos como presentes, a segunda leva para a inevitabilidade da ausência como condição exigente de o não nos conseguirmos encontrar.

A classificação de certa ou errada a frases com tanto sentido acaba por cair no vazio de explicações de “guarda-chuva em dia de sol”, logo as suas implicações e conclusões (ainda que sempre imperfeitas e incompletas…) ganham papel cénico principal e ensaiam no teatro da nossa cabeça as mais diferentes resoluções.

Quando me aproximo do processo terapêutico e de como a presença dos intervenientes é observada e notada no espaço de sessão, consigo perceber como, tantas vezes, se há ausência, o encontrar é tarefa árdua e em expectativa mal sucedida. Numa relação terapêutica, há a inevitabilidade da presença dos intervenientes, “transpirando” mais que um coabitar físico do espaço de intervenção, há que haver envolvimento e atenção, vontade e desafio para fazer viva a presença da pessoa e do terapeuta, dos canais que utilizam para comunicarem, das expressões que vão fazer notar para deixarem a sua marca na relação – difícil encontrar quem está desinteressado na proximidade e ainda mais penoso esperar que os interesses e ideias enquanto terapeuta aprisionem qualquer possibilidade de chamar à intervenção quem se encontra afastado (no sentido relacional que implica a distância).

O alarme toca na procura de quem está difícil ver presente e quando assim é, nada mais a fazer, do que tentar encontrar – a forma de cativar, a maneira de prender, a mensagem para chamar, aquela coisa ridícula que fazemos para ver comparência, a tentativa de humor, teatro, jogo que envolve a pessoa a deixar a ausência escolhida ou normalizada no seu comportamento e a dizer, de todas as formas possíveis, àquele tempo, espaço e figura do terapeuta um indispensável e disponível…PRESENTE.

Assim, percebe-se que quem não se consegue encontrar, ou quem não vê esforços para ser encontrado permaneça ausente e nesta ausência a terapia é impossível e não é mais que um espaço cheio de coisa nenhuma.

 

Luís Fernandes.

 

http://www.portugal.gov.pt/pt/o-meu-movimento/ver-movimentos.aspx?m=1259

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 1 de Maio de 2012 by in Uncategorized.

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