Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Crónica das boas maneiras alocalizadas.

“Admiras-te que de nada valha fugir quando tens dentro de ti aquilo de que foges? ” Séneca

Tal qual código deontológico de como fazer ou ser, esta história das boas maneiras perpetua-se de forma peganhenta na forma como pensamos e vemos o mundo. Por mais que a vontade queira, há sempre padrões de resposta que nos causam aversão, estranheza ou repugnância, pois estamos, hoje menos que nunca, formatados a reagir à diferença e ao inexpectável do comportamento social como algo que não devia ser e por isso não pode existir no nosso olhar, nas compreensões que temos disso.

Nesta luta contra o inato ou o culturalmente impregnado nas nossas formas atitudinais, as terapias enfrentam alguns desafios peculiares. Onde fica a nossa resposta quando os comportamentos diferentes são dificilmente aceites mas inofensivos para a pessoa e os outros? Quando os mesmos são uma antítese do que nós próprios consideramos rotuladamente normal? Se nos deparamos com o que consideramos desajustado e alocalizado aos olhos das nossa ideias?

As terapias são como tubos de ensaio – espaços de experimentação privilegiados para a tentativa, o risco, a coragem e a possibilidade de tentar e falhar, avaliar e ser avaliado, nunca julgado ou ostracizado. Pois se concordarmos que assim é, pede-se o contextualizar comportamentos, o fazê-los mais identitários e ajustados às realidades que os recebem e, mais importante, conceptualizá-los no seu caracter perturbador na vida da pessoa e dos que a rodeiam ao invés da possível perturbação que nos faz às nossas conceções do que devia ou teria que ser.

Na função de terapeuta, o aplicar como “bom aluno” no combate às “reservas” próprias, às opiniões que se procura cultivar e atualizar na leitura que se faz do mundo e das coisas dele, não obstante saber que o julgamento que é feito do que é ou devia ser o comportamento da pessoa se deve alocalizar de nós e “despir-se” de juízos para abraçar objetividades – ser a compreensão real do que é ajustado à realidade ou realidades da pessoa.

Assim, sabemos ter sempre as nossas boas maneiras, a forma por vezes raquítica de olharmos o mundo e o querermos organizado à medida da nossa retina, sabendo que a diferença não é só o que não somos mas vemos no outro, mas acima de tudo o que não conhecemos do que os outros na verdade podem ser.

Luís Fernandes.

 

http://www.portugal.gov.pt/pt/o-meu-movimento/ver-movimentos.aspx?m=1259

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 9 de Maio de 2012 by in Uncategorized.

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