Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

A vida nos bicos de bunsen.

“Os velhos são crianças inocentes da sua velhice. Neste sentido, a terra do homem é o planeta da inexperiência.” Milan Kundera

Prepara-se a mistura, o reagente com uma pitada disto e daquilo, o balão volumétrico está cheio para desgosto do goblé vazio, ergue-se o tubo de ensaio com a pinça firmemente a segurá-lo, o experimentador é experimentado na sensação de expectativa e, finalmente, a solução chega ao céu do bico de bunsen e a magia dá-se – fez-se experiência.

E não se sabe bem se a experiência é o que aconteceu ou o que ficou do acontecimento, pois é difícil perceber muitas vezes quem experimenta e quem fica como experimentado. Se tens experiência é porque já experienciaste inúmeras vezes a chamada…experiência, assim, balança-se na dúvida se quem fica experimentado é quem experimentou ou a situação experimentada.

Neste jogo enigmático entre os substantivos e os predicados, nasce a ideia de que qualquer situação envolve mudanças não-iguais mas existentes nos envolvidos – pois experiência pode ser uma coisa nunca experimentada, consistir o ato de experimentar/agir sobre algo ou ainda noutra dimensão, a caracterização bem impressionável de alguém – o “ter experiência”.

O que pode parecer um pormenor insignificante, mesmo à vista “armada”, pode consistir dado fundamental na perceção que temos das nossas experiências e da consciência que vamos tendo do que sabemos e retiramos delas. No campo terapêutico, a experiência engloba todos estes nomes e implicações – quando marca uma tentativa, um projeto, um objetivo e um querer e, principalmente, de forma cabal, quando diz respeito à interação que esta acarreta. A noção de que uma ação terapêutica modifica os envolvidos nesta, não se dá ao menosprezo, pois para trás (deverá ficar?) ficou o pensamento arcaico de uma terapia de marionetas – em que o cordão puxado, dá a resposta desejada – dando lugar à ideia de impacto mútuo das propostas colocadas em jogo.

Como terapeuta sinto a inevitabilidade de experimentar e ser experimentado em cada desafio que coloco ou ao qual sou colocado, ganhar o “ter experiência”, porque esta vive no que acontece e acima de tudo, fica no que “arrancamos” dela (com a força de um eu que se pensa com um conjunto de neurónios trabalhadores).

Os dias, além terapia, são em si mesmo uma experiência, com termo mais ou menos definido e com uma complexidade além da nossa compreensão, pois existimos debaixo de um gigante bico de bunsen que nos faz reagir e mudar a cada passo, deste que é, ao mesmo tempo, enigmático e fabuloso protocolo chamado vida.

P.S – Repeti neste texto a palavra experiência e os seus derivados cerca de 22 vezes, um teste ou uma experiência (23) à dicção do leitor ou, simplesmente, à sua paciência.

Luís Fernandes.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

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This entry was posted on 5 de Junho de 2012 by in Uncategorized.

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