Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

As mentes IKEA.

“O estudo em geral, a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida.” Albert Einstein

O tempo é um carteiro atrasado. O carteiro que viaja, para ele depressa, para entregar o que quem recebe anseia pela demora que a receção leva – é concreto na sua passagem, o mais subjetivo na perceção que temos dele. Sem tempo, voam as nossas projeções, as palavras pensadas, as opiniões formadas, os juízos e julgamentos sobre isto e aquilo e a forma como “alimentamos” e fazemos real o mundo que criamos que, no fundo, é o mundo que existe (nas vivências de quem o vive).

Quando criamos o “mundo” pelas leituras sucessivas, permanentes e conjuntas que vamos fazendo das realidades do mesmo, com velocidade a que este processo acontece, as mensagens que lemos são simplificadas e arrumadas nas “gavetas” que mesmo cheias de “roupa” gostamos de forçar – habituamo-nos a ter tudo arrumado como se esse tudo tivesse causa-efeito – como se sempre que falássemos alto os outros nos ouvissem, sempre que estamos tristes não nos rimos, sempre que estamos em festa, realmente festejamos, pois bem, sempre que o carteiro demora muito é porque está atrasado… Embora a nossa sobrevivência seja assegurada por este instinto de organização que nos permite atestar a segurança do nosso lugar nas coisas e de ter as coisas no lugar, a velocidade faz correr riscos de enviesar o “mundo”, de tornar as realidades facilitadas, ligeiras e pouco complexas na sua essência.

A verdade mais absoluta, que não me espanta continuar a encontrar é que a vida é muito complexa e que isso não lhe tira o fantástico tem.

Na prática da intervenção psicomotora junto de crianças/jovens e as suas famílias, quantas vezes os sinais que vemos e que aparecem como imagem de marca de um perfil comportamental são ora sintomas de algo que os causa, a causa das dificuldades contextuais, as consequências do que não está bem, os coadjuvantes ou imperativos de uma ação que conseguimos descrever ao pormenor, mas que se não desacelerarmos o processo de avaliação as encaixamos sem decifrar e as isolamos. Em certo sentido é mais aconchegado o inconsciente dos condicionalismos que impomos a nós mesmos e ao modo como de forma preguiçosa não abrimos a mente à diversidade imensa do que existe.

A tempo de travar a corrida desenfreada deste encaixe fácil, urge a disponibilidade para perceber que nem sempre as primeiras, segundas e terceiras vistas são as mais acertadas e, muitas vezes, precisamos de agir para “destapar” o que queremos ver, ou queremos provar que não é o que vemos – o processo de intervenção afigura-se, em muitos casos, como o melhor instrumento de avaliação completa de um indivíduo.

O saber olhar e pensar sobre algo, pede que a nossa cabeça não seja uma casa IKEA, em que tudo (ou quase) é rápido, simples e fácil de montar, acumulando-se móveis que deixam pouco espaço para a vida, pois não há mais-valia maior do que ter sempre espaço para nos deitarmos no “nosso chão” e sentir que detemos sempre espaço para algo mais.

 

Luís Fernandes.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

One comment on “As mentes IKEA.

  1. Tânia
    3 de Julho de 2012

    Gostei muito desta reflexão, faz todo o sentido! Até por que nem sempre é fácil entrarmos num mundo que não é o ”nosso”, às vezes é preciso batermos em muitas portas
    🙂

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This entry was posted on 3 de Julho de 2012 by in Uncategorized.

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