Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Ser metade puritano e já agora…psicomotricista.

“Não escrevi muito sobre mim nestes dias, em parte por preguiça, em parte também por medo de trair o conhecimento que tenho de mim” Franz Kafka

Ser psicomotricista é difícil, na contradição de realmente bom para quem faz por ser.

Começa com o aperto na garganta por ver as oportunidades profissionais a escassear, contínua no nó preso no estomago quando é complicado explicar o que somos e o que fazemos, aumenta na falta de espaço, materiais, fraca aposta na especificidade da nossa intervenção e no caminhar penoso para a “insignificância”, quando se perde o cunho e na diversidade se vestem roupagens que nos dão outra identidade que não a nossa – nós que temos o mapa, esquecemos onde guardamos o tesouro do desenvolvimento individual – o Corpo.

Toda a intervenção se quer diversa e global, levando no mesmo barco elementos de diversas áreas para respeitar a integridade de quem nela se envolve, porém quem tudo quer, nada alcança ou, na melhor das hipóteses, não alcança o tudo que queria, pois assim há um espaço confortável, o nosso “sofá de competências”, do qual as condições não nos podem empurrar, pois o prazer de nele estar sentado acarreta responsabilidade ética e pessoal que nos obriga e (supostamente) nos alegra de poder dizer – “sou psicomotricista e faço intervenção psicomotora” –  ao ver o individuo pelos olhos do seu corpo, da capacidade de utilizar o mesmo para desenvolver, prever, resolver, remediar, ajudar, aumentar…fazer acontecer formas de lidar com os problemas que surgem e os desafios que queremos que existam para crescer.

Sem o temor da incompreensão, com “escudo e espada” (e se conseguirem, de cavalo) da aptidão e, acima de tudo, da vontade em ser psicomotricista, mantem-se necessária uma atitude de marca, de impressão personalizada sem as desculpas das dificuldades clássicas e com a forma puritana de nos sentirmos íntegros.

A diversidade, por vezes corre desenfreada e cega para o igual, e isso torna-nos confundíveis e tal como os uniformes dos irmãos Dalton, ficamos demasiado parecidos para ser em profundidade conhecidos, presos ao desconforto de fazer o que não somos e, espero eu, com melhor cheiro que estes. Os grandes desafios não se encerram, como pode parecer, na falta de emprego, na tenra idade do âmbito da intervenção, na difundida indefinição… moram antes numa casa mais pequena onde ainda podemos mexer sem ser levados pela crise, uma casa que parte de nós, que pode ter divisões muito diferentes (das mais afastadas áreas) mas que, no fim, reconhecemos como lar, como sendo aquilo que sabemos, podemos e devemos fazer por e com quem nos procura.

O repto é fazer por continuar integro e nessa totalidade que, ao menos, metade de nós reclame psicomotricidade e, por favor, se faça ouvir, ver, sentir…

Luís Fernandes

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8 comments on “Ser metade puritano e já agora…psicomotricista.

  1. Mariana Mateus Figueiredo
    18 de Setembro de 2012

    Excelente!!! Obrigada por partilhares textos tão ricos todas as semanas… Este está fantástico!!!!!

  2. Adriana Afonso
    19 de Setembro de 2012

    Parabéns pelo texto! é mais um fantástico! Dá alento e força!
    Obrigada!

    • Tatiana Gurovich
      21 de Dezembro de 2012

      Felicitaciones, me gusta mucho como escribes .. Un abrazo cariñoso desde Chile

  3. Graça FF
    25 de Novembro de 2012

    Muito bom mesmo, desculpa a redundância🙂 “Quando for grande” gostava de – como tu – conseguir colocar em palavras o que sinto. Obrigada por partilhares!!

  4. Ana Lúcia
    25 de Novembro de 2012

    Excelente jogo de palavras, mas cheio se “substância”. Bem hajas.

  5. Catarina Marques
    26 de Novembro de 2012

    De fato, ser psicomotricista não é fácil. Todos que o somos, sentimos na pele essa(s) dificuldade(s). Obrigada pelas palavras..é uma lufada de ar fresco!

  6. Elisabete
    27 de Novembro de 2012

    Ser profissional da psicomotricidade, ou psicomotricista, tanto faz…será uma área de intervenção terapêutica, num futuro próximo, acreditem!!!!
    Tudo leva o seu tempo…mas o psicomotricista, desanima, mas não desiste!

  7. kiki
    1 de Agosto de 2013

    mt obrigada por partilhar esta informação que para mts é desconhecida

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This entry was posted on 18 de Setembro de 2012 by in Uncategorized.

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