Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Procurar o que não existe.

 

“Do nada, nada vem; e ao nada, nada pode reverter” Aulo Pérsio

Numa altura em que em todos moram muitas perguntas, talvez mais que noutra, talvez porque agora fica a sensação desenfreada que há em todo o lado e em lado algum, respostas – diferentes, novas, por vezes com a ilusão de breve e repentino. O bafejar no contexto terapêutico e educativo do poder da novidade tem feito cair a persistência e o continuar no que já se viu funcionar, pois é mais fácil estar em movimento porque se sente vida e se quebra a inércia, do que parecer parado a fazer as coisas mudar em continuidade e intencionalidade.

A realidade dá-nos a responsabilidade de ter direitos – de procurar mudar, de não estar satisfeito, de sentir que não estão a ser atingidos objetivos, de existir insatisfação com o técnico/professor, de querer experimentar aquela terapia ou método que até dá na televisão e que a vizinha diz que é boa, que poucos ouviram falar mas que entra triunfantemente na galeria de soluções miraculosas e deixa a ideia de investimento e persistência na mudança como um lugar penoso e em que não apetece estar. Na procura do melhor, experimentam-se cada vez mais soluções terapêuticas tidas como inovadores e torna-se menos atrativo um processo refletido e construído que leva tempo.

O tempo, elemento preponderante, nem sempre é auxiliar da razão, às vezes senta-se nas vontades e é levado pela impetuosidade ao som das soluções que não existem a não ser na pretensão onírica de quem nelas se acredita e se desilude em recorrência… a tendência é pensar que a galinha do vizinho é sempre melhor que a nossa, mesmo que não saibamos se o vizinho tem sequer galinha, assim, quantas pessoas partem no ímpeto de encontrar mudança e “cura” em modelos que desconhecem e que, na pior das hipóteses, nem modelos podem ser considerados.

Este impulso pela experimentação dos desejos também se alimenta da “neblina”, da pouca clareza, da falta de comunicação entre técnicos e pessoas que os procuram – sem objectivos comuns a demanda é impossível, sem responsabilidades partilhadas os objectivos não são atingidos, sem avaliação da intervenção quem responsabilizamos pelo seu desenvolvimento? Do desacerto desconcertado entre expectativas de técnico/professor e pessoa, nascem as maiores insatisfações e dá-se a erosão da ideia de futuro, remediado, melhorado, enfim, diferente.

As condições sociais e económicas deviam levar-nos a jogar pelo seguro, embora se saiba que as aprendizagens vêm da experiência, e daqueles erros que se fazem em apostar em coisas sem sentido, em intervenções que se vestiram de prodigiosas, em tentar mudar ao primeiro impasse, em sentir que podia haver algo diferente que chegava, via e mudava, em gostar de ouvir as soluções que se apregoam como paradigmas mas que caem sem destino como papel movido a gravidade…

Assim, se tantas vezes para aprender é preciso errar, que o erro seja pouco, ou que esse pouco seja o suficiente para se fazer as coisas certas, mesmo que demorem a parece-lo, mesmo que para isso tenhamos que ver com clareza os buracos no caminho e as, sempre para nós demasiado longe, metas a alcançar.

Não negues à partida uma ciência que desconheces, Nega o desconhecido que à partida pode parecer ciência.

Luís Fernandes

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This entry was posted on 25 de Setembro de 2012 by in Uncategorized.

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