Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Estamos sempre a chamar por ALÁguem.

“Haja ou não deuses, deles somos servos.” Fernando Pessoa

O ego e a vontade de ser mais do que somos alimenta a ideia de que a independência é total, como se a felicidade vivesse dentro do homem e como se a sua vida fosse o refletir dos órgãos e o palpitar das ideias…no fundo somos parvos – gostamos de poder fazer o que mais queremos, ouvir a nossa música, descalçar as nossas meias, dominar o comando da televisão, fazer sonhos e projetos de uma vida ou de uma hora ou duas mas não percebemos que ter o nosso espaço é estar noutros. A inevitabilidade de sermos dependentes é real e não necessita de alimentação nem procura, é como o corpo nunca se separar do homem, uma realidade imutável (há poucas que o são, muitas que o parecem…) que faz confundir o Eu com o Outro.

Como não basta esta inscrita dependência, procuramos ou somos arrastados a outras – vícios, hobby´s, adições e com maior frequência, a ligação a um ser superior que salva, cura, castiga, mas que também pode promulgar, possibilitar, dar condições, mandar ou fazer qualquer coisa que nos desresponsabilize e que sirva como desculpa para a nossa inação. Precisamos ser ouvidos e de uma resposta que procuramos mais longe, sem olhar para o nosso lado.

Nas escolas, muitas vezes, a constatação surge na impossibilidade de ajudar a criança porque espera-se uma réplica de uma instância superior que demora e atrasa, já outros pais esperam soluções imediatas e sem implicações dos professores e técnicos aos seus desesperantes obstáculos, como se existisse alguma divina intervenção que tudo transformasse e que de tudo dependesse (infelizmente não somos assim tão bons e nem seremos…), os técnicos esperam autorizações que já têm para procurar novas respostas, investir na especificidade de intervenções individualizadas e que por isso arrisquem a diversidade das exigências, os licenciados esperam por respostas que estão vazias de possibilidades, o país aguarda a boia europeia ou a bola de Berlim no perdão da divida e de todas essas contas demasiado complicadas…

A globalização das coisas e das ideias roubou-nos o provincianismo comunitário, a forma como sabíamos recorrer aos próximos para “sobreviver” ao que a vida pedia, a maneira como nos ligávamos e interdependíamos sem pedir a ALÁ, seja ele quem seja – a comunicação anda fraca e isso faz-nos menos bons, menos ativos, mais sozinhos e com menos recursos. Se insistirmos em esperar por esse “alguém” que venha e que transforme o projeto em certeza, corremos o risco de vivermos no projetado a dormir debaixo da cama da realidade dita possível e que nos saqueia as felicidades pequenas das conquistas, dos desafios, do trabalho em equipa, do ver acontecer porque nisso sonhamos…

Hoje apetecia-me ir ao dicionário e cortar a palavra “dependência” por achar que a estamos a inutilizar, que a transformamos em serventia e nos fizemos escravos das impossibilidades nascidas nas ideias dos outros…hoje, como em outros dias, apetecia-me multiplicar a palavra “comunicação” e deixar a atitude inundada de procura e de contacto próximo com quem uma vez apanhado nos problemas, só pode fazer parte da solução, pois não há nada que de nós dependa que não nos possa ser permitido.

Luís Fernandes

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This entry was posted on 23 de Outubro de 2012 by in Uncategorized.

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