Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

O que está no “entre”.

“O telhado é um chapéu muito exagerado e o chão é uma parede a dormir.” Eugéne Fauche aka Afonso Cruz

Entre mim e estas letras, está um teclado, entre as ideias e o que escrevo estão uns nacos de carne com unhas a que chamamos dedos, entre a minha casa e a do vizinho costumam estar umas paredes, entre um maratonista e o alcatrão moram uns ténis, entre as vontades e as realizações acordam as ações, entre os corpos abraçados há emoções peganhosas, entre o cinto e a cintura estão as calças ou calções, entre as metades das maçãs estão os caroços aninhados, enfim… entre um problema e uma solução, há sempre um homem.

Quantas vezes uma solução para um problema faz parecer o mesmo maior? Tal qual levar o copo cheio à boca aumenta a probabilidade do que lá está cair, pois a menos que o mundo abane, os copos que lá estão parados, não se dão a grande movimento.

No contexto terapêutico e educativo os problemas ou desafios são constantes, quase uma “segunda pele” do que está a ser feito e a confirmação empírica de que a mudança é procurada, atingida e pode ser avaliada. Procurar resolver um problema não é coisa fácil, nem no encontrar das melhores soluções, nem no acertar do timing para as mesmas e, muito menos, na coragem e responsabilidade de as tomar – é sempre mais fácil optar pela inibição reativa às dificuldades, aninhados na procrastinação profissional – fenómeno conhecido, por caracterizar as terapias ou intentos educativos como coisas que “mal não fazem” e portanto uteis ou idiotamente consideradas importantes.

Como sinto estes processos mais como viagens do que visitas, lembro-me de não esquecer que para viajar é preciso qualquer coisa andar e que para alguma coisa andar é preciso que se movimente, que passe de um ponto para outro, que mude…e a mudança tem barreiras, tem a areia da praia a queimar os pés antes de chegar à água fresca, tem o frio quando se prepara o aconchegante banho de inverno, tem essas coisas que obrigam esforço para chegar ao pretendido, sempre um caminho entre onde estamos e onde queremos chegar.

A terapia e/ou a educação são estas viagens, com movimentos que são soluções mas que nos primeiros momentos criam barreiras, esforços e problemas que tentam tapar o que está além disso, mais lá onde queremos chegar.

Há sempre qualquer coisa “entre” que se faz ocupar.

Luís Fernandes

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One comment on “O que está no “entre”.

  1. claracastilho
    6 de Novembro de 2012

    Muito bem, Luís. Como sempre, aliás. Sou testemunha da sua capacidade para a intervir no “entre”. Continue!

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This entry was posted on 6 de Novembro de 2012 by in Uncategorized.

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