Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Des(p)ejos de 2013

"Que tudo quanto dei me voltou em lixo" Fernando Pessoa.

“Que tudo quanto dei me voltou em lixo” Fernando Pessoa.

Época das resoluções. De resolver o que ficou por decifrar de melhorar a posição daquelas molduras de vida que deixamos sempre no mesmo pó, com vontade diária, ou mais que isso, de as mudar e dar uma limpeza. A esperança de mudança ingénua como a da criança que ainda acredita que desaparecer atrás de um lenço é deixar de existir, como a do mais amador de cozinheiros que julga que o juntar ingredientes chega para fazer o prato completo, de todos nós que desejamos que coisas se façam acontecer, que acreditamos (e ainda bem…) que o ano próximo é lugar para o que ainda não aconteceu.

Hoje, pensei na lista de despojos, de coisas que não queria ver transformadas, mas encaixotadas onde me possam fugir, onde não façam parte.

A pensar, soube que viajava no despojar da rendição ao estado de dificuldade com que embatemos, na facilidade em que desistimos e nos acomodamos ao que não conseguimos, aos objetivos que não alcançamos, à roda de hamster que é a rotina, à complicação que por vezes existe quando como terapeutas, técnicos e pais nos fechamos nos mesmos caminhos para atingir novas soluções.

Como se a viagem não tivesse começado, vi que me passeava na insegurança disfarçada de medo de experimentar fazer, de sair do espaço de garantia e automatizado em que a intervenção gosta de cair (ou nós?), de arriscar com conhecimento e foco e não ficar amarrado no que uma vez resultou, porque se há coisas que reforçam a verdade é a possibilidade de ser posta em causa.

Depois destes passeios e se calhar motivado por me lembrar do que é para deitar fora, reparei que o garfo nunca quer substituir a faca, que o copo nunca será prato e que o prato não serve de nada para enviar mails, que a intervenção psicomotora tem o seu espaço e que não quer, nem pode querer ser mais do que aquilo que é, sabendo que assim for, já será muito, muito bom.

A chegar ao fim deste momento de (re) análise, reparei como é importante ouvir mais que falar, transfigurar as ideias é um processo de bricolage mental, de ter materiais que obrigam a novas transformações, de os reunir vindos de todo o lado, mesmo que no fim, o resultado seja mais pequeno que a soma das partes.

Esta, será a lista de despojos, a trashlist que nunca tinha pensado fazer, mas que sabe bem, não é como um emagrecimento rápido de uma qualquer clinica cirúrgica, nem um nutribalance da intervenção, mas é como largar velhos hábitos, pois ao contrário do que pareceu pensar Lavoisier, nem tudo não se perde mas há um quase nada que não merece transformação.

Luís Fernandes

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This entry was posted on 8 de Janeiro de 2013 by in Uncategorized.

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