Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Liberdade na escada rolante

"O degrau da escada nunca foi feito para descansar."

“O degrau da escada nunca foi feito para descansar.”

Se estas letras soarem a música, isto será qualquer coisa como um prelúdio: Um centro comercial é um aperitivo de um reality-show. Tal como o croquete, rissol ou algo mais doce cumpre a função na perfeição – é rápido, faz mal a isto e aquilo, mas por vezes é mesmo irresistível, um verdadeiro banquete de ideias.

Na azáfama das coisas a comprar, a ver e experimentar de um centro comercial, há sempre aquela criança que observa o parque de diversões dos crescidos e toma atenção às cores intrusivas das montras de brinquedos, ao cheiro ruidoso dos gelados do canto ou à forma como o braço dos pais, não demasiado subtil, lhe desvia do palácio das gomas prostradas ali no meio daquele mundo.

Num mundo em que o começo e o fim se encerra tantas vezes naquela subida/descida das escadas rolantes, marcada com “filmes e cenas cortadas” que vão desde a permissão corajosa ao “nem pensar nisso que é perigoso”, acabando na alegria temerosa, na coragem desbravada ou na frustração amuada da criança que se intriga e fascina com o chão a andar por baixo dos pés.

Ver o chão fugir é coisa difícil de perceber e de encaixar, poder nele andar é sinal de crescer e de saber manter a verticalidade nas mais complicadas situações. As escadas rolantes encerram o binómio da independência/dependência de forma quase magistral, são uma metáfora da vida, mais uma que o homem construi disfarçando-a de objeto útil.

No campo terapêutico, um dos passos mais determinantes é saber quando começar a “largar” quem connosco se suportou, saber quando deixamos as escadas rolarem sem estarmos atrás ou na mão de quem as começou a subir. Os recursos, cada um terá os seus, cada um os terá trabalhado com uma ajuda que se foi tornando mais ténue e que foi se desvanecendo na forma como foi caminhando para a insignificância.

Sim! verdade é que se tivermos a fazer a coisa bem, andamos em passos largos para a inutilidade (destino alegre do técnico…) – não saber dar autonomia é ficar parado no degrau quando se saber que nunca se vai subir a escada.  Se o pé fica assente no bordo, se entra primeiro o pé direito, se o salto é melhor e se as mãos ficam mais descansadas se agarradas ao corrimão…só nos cabe a nós ajudar a descobrir, pois isso são as ferramentas que ainda não foram encontradas ou que estão muito escondidas nos problemas que surgem nos degraus.

O técnico bem-sucedido é o que consegue chegar ao ponto em que é inútil, porque a velocidade rolante da vida, quando consegue ser agarrada é como a criança que já pode subir a escada e só se importa se alguém vai lá estar quando ela olhar para trás.

 

Luís Fernandes

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One comment on “Liberdade na escada rolante

  1. Reflexões de um Psiquiatra
    14 de Maio de 2013

    Muito interessante. Parabéns pelo blogue!

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This entry was posted on 5 de Fevereiro de 2013 by in Uncategorized.

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