Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

As coisas meio cheias

"A felicidade é aprender um truque de magia” Afonso Cruz

“A felicidade é aprender um truque de magia” Afonso Cruz

O andar desconcertado de duas pernas balançantes num espaço que parece infinito, nós que quando crescemos perdemos as coisas, tudo nos parece mais pequeno porque também nós já somos maiores – crescer é encolher o mundo. Aquele espaço pequeno em que atravessávamos como túnel mágico de emoções que se escondem para aparecer noutro lado é agora buraco que fica junto aos pés, as escadas ingremes do prédio dos avós não são mais a trepadeira contente do esforço que nela depositávamos, e passaram a ser mais um chão comum da corrida da vida dos grandes. A fantasia que se colava à palavra criança é agora pó no ombro dos maiores, pó que se o vento estiver a favor vamos snifando e tomando mais um bafo, quente, de tudo o que já conseguimos viver.

Há tempos em que não importa o quão cheio está o copo, se meio disto ou daquilo, não importa se há copo sequer, o que sentimos é espelho da palavra possibilidade e mesmo o que não existe, guarda-se num canto protegido da cabeça de quem pensa – a morada das coisas nunca deixou de ser a nossa. Aquela queda que nunca pensamos dar, os braços de abraço de quem gostamos, o fazer de conta que se é criança quando a realidade faz acreditar que se pode ser super-herói, aquelas pequenas coisas que fazem arrancar sorrisos que veem mais que os incisivos, todo o pulsar de um coração que mesmo pequeno está muito mais cheio de vida, pois essa não se vê no tamanho do esqueleto mas na passada em que o mesmo se projeta.

Na terapia e educação, assustam os tecnocratas, os movimentos sustentados de instrução que irrompem “guidelines” e que invadem o “como fazer” de forma dilacerante. Os mesmos que entre livros e papéis esquecem as letras da vida, as correrias, a banalidade da diversidade, que se ri deles instalada numa poltrona qualquer. O Desenvolvimento deixou de contar com a fantasia, a magia das brincadeiras, a pujança das descobertas, a importância de estar com o outro além contas, equações, parágrafos e estudos do meio, um desenvolvimento que agora vive acorrentado à exigência precoce, sem tempo para ser ou poder aspirar a isso. Nunca um carrossel importou tão pouco, nunca aquele super-herói foi tão estupidamente verdadeiro, dificilmente as preposições, adjetivos, antónimos e sinónimos, os grupos, séries e operações serão tão pouco mágicas como hoje o são – elementos assustadores que andam em má companhia da punição, do insucesso e da pressão.

E se crescer é encolher o mundo, matar a fantasia própria da infância é fazer pior, é desaparecer para locais sempre muito difíceis de regressar…

Luís Fernandes

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This entry was posted on 19 de Março de 2013 by in Uncategorized.

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