Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Os olhos são de quem nos vê

"É preciso encontrar o amigo intimo" Miguel Torga

“É preciso encontrar o amigo intimo” Miguel Torga

Os nossos olhos são mais de quem nos vê. De quem percebe num momento ou instante o que vai cá dentro, de quem nos lê como livros, revistas, jornais ou recados apressados deixados na mesa da cozinha ou no móvel da sala…os olhos contam as histórias que os lábios têm medo de contar, empurram-nos cá para fora como a chuva empurra-nos para o abrigo ou a saudade nos arrasta para aquilo que anda a fazer falta. Desde o momento em que nascemos que cedemos os olhos ao mundo, à mãe que não houve palavras e sente o bebé nas suas caretas, à professora que vê se o olhar se senta nos trabalhos ou ao inibido soslaio com que observamos a rapariga desejada (que invariavelmente, goza da nossa inocência em imaginar que é possível a paixão observar sem ser observada). O mundo usou-se dos nossos olhos, alugou o corpo para nos poder ver.

O olhar é um dos instrumentos mais determinantes na relação terapêutica. Na linguagem corporal, preenchida de signos e símbolos só dela, o olhar reclama para si um lugar especial, uma dinâmica própria de pensamentos que se parecem estender além do corpo, de uma profundidade tantas vezes dilacerante como entusiasmadora. Os olhos contam autênticas histórias sem filtro, sem finais que têm que ser felizes, sem “pis” para conter os palavrões, sem moral para conter o agressivo e acima de tudo, sem maneiras para pedir licença e entrar no espaço de intervenção. Olhar para ser olhado, ser olhado para poder olhar é um dos jogos do processo terapêutico, um daqueles elefantes gigantes que ficam na sala sem darmos conta dele – faz barulho, ocupa espaço, deixa marcas e, mais que tudo o resto, mexe nas nossas coisas sem avisar primeiro – pode falar mais alto que as palavras mesmo que estas gritem coisas contrárias.

E se há pior que ter elefantes à solta é não saber que eles lá estão, não saber de que forma os olhos podem mudar tudo na relação, de que forma os podemos receber para mudar, o que nos dizem da pessoa que os transporta e que deles faz parte numa relação apenas penetrável pela capacidade que enquanto terapeutas/educadores estivermos preparados para mostrar.

Donde estou só vejo um ecrã de computador, sem olhos que não sejam os meus, sem hipótese de ver nos vossos olhos o que a leitura deste texto vos diz, partilharão esse vosso elefante com alguém que os vossos olhos alugou pois estou cada vez mais convencido que não há, por mais pequeno e ínfimo que seja, um único fotorreceptor que só a nós pertença.

Luís Fernandes

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This entry was posted on 29 de Outubro de 2013 by in Uncategorized.

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