Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Desordens enlatadas.

“Andava preso em liberdade pela cidade.” Alberto Caeiro

“Andava preso em liberdade pela cidade.” Alberto Caeiro

 

 

 

 

 

 

 

Não gosto de enlatados, de coisas a empurrarem-se em espaços minúsculos, de não haver ar sem gente, espaço sem espaço ou ciclos apertados onde o movimento é sempre o mesmo até à sua repetição. Por vezes, quando tudo está fechado, até parecem não haver portas e o cego não é quem não quer ver, é mesmo quem não consegue. Nestas vezes os caminhos parecem poucos, as hipóteses ainda menos e ficar preso à realidade que existe, afigura-se como a inevitabilidade do curso dos acontecimentos.

Na prática terapêutica é importante perceber que dinâmicas estão “entaladas”, presas a um ciclo que se repete estendido a benefícios secundários ou às dificuldades em inverter caminhos, quando os mesmos, tantas vezes, não são conhecidos.

Na azáfama dos dias, as famílias procuram desprender-se deste “andar em círculos”, da constatação das dificuldades como hábito que não faz monges mas deixa marcas em cada um dos seus elementos – as conversas que não se conseguem ter, os trabalhos de casa que querem ficar por fazer, os conflitos que começam minúsculos e se apressam a encher a casa, aquelas pequenas coisas que parecem sempre acontecer e que se espera que desapareçam por feitiço do tempo. Se há tempo que muda, há outro que corrói e enrijece, torna a visão turva e estar dentro de água torna difícil ver o fundo, assim, tudo o que de negativo se mantem, mais forte se torna e as famílias vivem com isso, com dinâmicas repetidas de conflito, com perceções e leituras erradas dos problemas e das suas hipóteses de solução e fugas às dificuldades, sem lugar para fugir delas.

Mudar é um verdadeiro desafio, um processo que tantas vezes exige ajuda e alguém que “abra a lata” de lugares fechados, por onde possa entrar ar para quem nestes se move. Lufadas que são ideias, compreensão, novas maneiras de pensar, leituras diferentes, soluções, dicas, estratégias, modelos, tentativas, erros, insucessos, sucessos, mãos no ombro ou olhares cúmplices. “Latas” que se abrem para melhorar pois a maior das prisões é a do vernáculo pessoano, aquela que significa estar preso em liberdade e pensar que tudo tem que assim continuar.

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This entry was posted on 5 de Novembro de 2013 by in Uncategorized.

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