Reflexões de um psicomotricista

Uma visão do processo terapêutico e as suas implicações

Viroses parentais.

“Do modo como a concebemos, a vida em família não é mais natural para nós do que uma gaiola é para um papagaio” B. Shaw

Nesta época invernosa, em que as viroses gripais e outras que tais insistem em vir passar um “bom” bocado connosco, concentro as atenções para as figuras parentais e as suas, por vezes existentes, semelhanças com aqueles aglomerados moleculares que apenas se conseguem multiplicar e subsistir no interior de uma célula viva – os vírus.

Como é sabido, mas deficitariamente assumido, os pais são os principais “pedagogos do mundo”, pois ninguém como as figuras parentais tem um papel tão preponderante e decisivo na educação das crianças. A função de educar, tal como o seu valor, são componentes complexos e de delicada resolução, pelo seu dinamismo, pelas suas exigências, pela entrega pessoal e autêntica dos pais no movimento que, por mais gratificante que seja, será sempre de uma certa perda reflectida na construção por parte da criança de uma estrutura psíquica própria, que se quer gradualmente autónoma e independente. Nesta tarefa educativa parental, quando as dificuldades surgem, existe geralmente, uma procura de ajuda, uma demanda legítima de “terapizar” a educação, de uma intervenção exterior sobre a mesma.

A questão de fundo na procura dos pais, será sempre o que os leva ao trilho deste caminho de solução – a razão da existência da necessidade de intervenção, na cabeça de quem a procura. O que se vê, com recorrência, são pais, que pelas suas dificuldades próprias procuram intervenções terapêuticas intensivas para os seus descendentes – na complicação em olhar para eles, projectam a visão em algo que acaba por ser, em grande parte, produto do que eles são – os filhos.

Nestes casos a atitude dos pais face à terapia é, em metáfora, uma virose parental. Tal como os vírus, os pais dependem de uma “célula viva”, os filhos, para “viverem” ou “sobreviverem” aos seus problemas – uma fuga para o outro, uma despersonalização dos problemas, quando centrados nas crianças. São também os vírus que, uma vez acoplados às “células vivas”, provocam nas mesmas um conjunto de reacções fisiológicas com consequências desagradáveis para os “portadores”. Figuras parentais, como as que acima referi, são também causadoras de danos nocivamente importantes nos filhos, a sua ansiedade, a depressividade, as preocupações, as dificuldades naturais na função parental, entre outras questões, são desenhadas nos crianças, causam marca importante no seu desenvolvimento psicológico e empobrecem a relação pais-filhos – a transmissibilidade dos vírus também tem espelho nesta circunstância. São, usualmente, pais que se “multiplicam” (um vírus produz em, poucas horas, cerca de um milhão de novos indivíduos) na procura de perturbações infantis explicativas das dificuldades no contacto com os filhos, procuram mil e uma terapias, desenvolvem esforços económica e humanamente louváveis para encontrarem soluções que lhes digam que o problema não são eles. Por vezes, a dimensão das dificuldades não é, nem de perto, igual à dimensão da sua génese, assim como os vírus, o que contamina as relações pode ser minúsculo, facilmente ultrapassado ou alterável por modificações práticas na organização familiar ou na concepção sobre a mesma – ao invés disso, procuram-se alterações de fundo e assumpção de doença ou deficiência, apenas transponível com a hipótese de “cura” – tantas vezes alimentada por técnicos desleais e eticamente reprováveis.

A função parental e a capacidade de corresponder à mesma, não é uma capacidade humanamente adquirida, exige um grande esforço, maior para uns, menor para outros. A necessidade de construir um sistema social que defenda a parentalidade e os pais é essencial, preponderante para o futuro. Das experiências que tenho observado, Ser Pai é “tratar o amor por eu”, porque é, de certa forma, sentir que a dedicação para os filhos é alimentação emocional para os pais.

Apelo a uma discussão directa às questões levantadas no corpo da reflexão, lembrando que outras profissões passam por semelhante situação. Mostrem a vossa opinião neste espaço, para que a mesma possa ser partilhada.

 

 

 

4 comments on “Viroses parentais.

  1. Filipa
    30 de Novembro de 2010

    Estou de acordo contigo Luís. Sem dúvida que em muitos casos, são os pais/figuras parentais que necessitam, primeiramente que os seus filhos, das tais ‘terapias’…acabando por causar (acredito que ‘inconscientemente’) danos no desenvolvimento psicológico destes…

    • lusfernandes
      28 de Dezembro de 2010

      A determinação de quem necessita de intervenção num complexo familiar a nós apresentado é sempre um ponto delicado no inicio de qualquer processo terapêutico. Obrigado pelos comentários.

  2. Pedro Morato
    2 de Dezembro de 2010

    Olá Luis, partilho em boa parte da tua proposta de reflexão. Gostei particularmente do último parágrafo. Aí sim, penso que tocas no problema da parentalidade, ou seja, ser-se pai ou mãe em termos biológicos é fácil e estamos maioritariamente prontos para isso, porém a questão e tal como tu a pões é que a função parental e sem complicar, não é de todo a capacidade de procriar mas sim a competência de cuidar. Esta função de cuidar em termos objectivos, o que ela implica de facto na cedência de egoismos, na assunção responsável de pensar o outro mas não só por dever mas por querer, provavelmente não passa pela maior parte das cabeças das pessoas. Com João dos Santos aprendi que a parentalidade não se presume, ou seja, o sentimento de amar é em verdade algo de dificil imaginação e por melhores intenções em tudo o que possa ser sonho, o facto é que depois o sentimento real de amar em autenticidade é que prevalece como o veredicto da tal competência de cuidar, que é o prazer da relação, de observar, de ouvir e de dar. Para esta função só a vivemos experimentando, arriscando e é este o facto que nos deixa a enorme vulnerabilidade da existência mais ou menos bem sucedida.

    Abraço, Pedro M.

    • lusfernandes
      28 de Dezembro de 2010

      Penso que era ai mesmo que eu gostava de chegar. Numa altura em que se pensa que todos os saberes estão encaixados nos livros, que dizem como dar banho à criança, como a adormecer, como preparar a entrada para a escola e mil e uma coisas – os sucessivos guias para pais – perde-se a consciência desse processo de cuidar, que é muito mais experimental e, de certa forma, vivencial do que se pode sequer imaginar. Ser mãe ou pai envolve um processo muito mais atitudinal e pessoal que intelectualizado ou instruído. Obrigado por este momento de partilha.

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This entry was posted on 30 de Novembro de 2010 by in Uncategorized.

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